
A troca de críticas entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro nos últimos dias revelou mais do que um desentendimento familiar ou partidário. Ela expôs uma fragilidade que acompanha a direita brasileira desde 2018.
A discussão sobre quem representará esse campo político na eleição presidencial parece ter começado pelo fim. Antes mesmo de um debate amplo sobre qual projeto, qual estratégia e qual candidato teria melhores condições de derrotar Lula, o nome já parecia definido. O restante da discussão passou a girar em torno da decisão previamente tomada.
Em democracias maduras, costuma ocorrer exatamente o contrário. Os partidos existem para isso. Eles discutem projetos, formam lideranças, resolvem divergências, estabelecem critérios, debatem, debatem, debatem e, ao fim do processo, escolhem seus candidatos. Em muitos países, isso ocorre por meio de prévias. Em outros, por convenções competitivas. O importante não é o mecanismo, mas a lógica: primeiro se constrói uma decisão coletiva; depois se apresenta um candidato.
Transformar uma eleição excepcional em modelo permanente talvez tenha sido o maior erro estratégico da direita brasileira
Quando esse processo não existe, o debate migra para as redes sociais. Divergências que deveriam ser resolvidas internamente passam a ser travadas diante dos eleitores e, principalmente, dos adversários. O problema, porém, não começou agora.
A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 produziu uma enorme transformação política. Pela primeira vez em décadas, milhões de brasileiros passaram a se declarar abertamente de direita. Liberais e conservadores deixaram de ser uma minoria envergonhada para se tornar uma força eleitoral relevante.
Mas aquela vitória também produziu uma ilusão. Muitos concluíram que não seria necessário construir um partido forte. Bolsonaro vencera sem uma grande legenda. Outros passaram a acreditar que tempo de televisão havia se tornado irrelevante. Afinal, Bolsonaro praticamente não o teve. Houve quem decretasse que as redes sociais substituíam as estruturas partidárias tradicionais. Achavam que a direita havia descoberto um novo caminho para chegar ao poder.
A eleição de 2018 foi extraordinária justamente porque reuniu circunstâncias extraordinárias: uma profunda rejeição ao PT após a Lava Jato, uma grave crise econômica, o desgaste da política tradicional, o atentado contra Bolsonaro durante a campanha, e uma liderança capaz de canalizar esse sentimento.
Transformar uma eleição excepcional em modelo permanente talvez tenha sido o maior erro estratégico da direita brasileira. A história mostra outro caminho.
Ronald Reagan venceu a eleição de 1980, mas sua vitória não surgiu do nada. Foi precedida por quase duas décadas de reconstrução intelectual, cultural e partidária da direita americana. Vieram antes Barry Goldwater, a National Review de William F. Buckley, a Young Americans for Freedom, a Heritage Foundation, a formação de milhares de lideranças locais, governadores, parlamentares e ativistas. Reagan foi consequência de um movimento que já tinha instituições sólidas. Ele foi o resultado, não a causa da transformação da direita americana.
No Brasil, ocorreu quase o inverso: o líder apareceu antes da organização. Construiu-se uma enorme base eleitoral, mas não uma estrutura política capaz de sobreviver às circunstâncias excepcionais que a originaram. Não se consolidou um partido forte, com identidade programática clara, mecanismos internos de deliberação, formação permanente de quadros e capacidade de administrar conflitos sem transformá-los em crises públicas. Os efeitos começam a aparecer.
A direita continua discutindo pessoas quando deveria estar discutindo instituições
O governo Lula enfrenta dificuldades evidentes. Sua popularidade caiu. A economia cresce menos do que o esperado, a percepção sobre a segurança pública continua negativa e a rejeição ao governo permanece elevada. Em muitas democracias, esse cenário seria suficiente para produzir uma oposição fortalecida e organizada. Mas não no Brasil.
A direita continua discutindo pessoas quando deveria estar discutindo instituições. Continua apostando na força individual de lideranças quando deveria estar formando novas lideranças. Continua tratando partidos como meros instrumentos eleitorais, quando eles deveriam ser espaços permanentes de construção política.
Foi assim com os republicanos americanos. Foi assim com os conservadores britânicos. Foi assim com praticamente todas as forças políticas que conseguiram sobreviver às mudanças de geração e continuar vencendo eleições.
O verdadeiro legado de uma liderança não é apenas ganhar uma eleição. É deixar organizações capazes de continuar vencendo quando ela já não estiver mais presente. Talvez esta seja a principal lição que a direita brasileira ainda precise aprender. Ela já venceu uma vez. Mas ainda não aprendeu como voltar a vencer.
















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