
Pouco depois do meio-dia de 27 de fevereiro de 1914, sete canoas partiram de um ponto onde a linha telegráfica cruzava um rio escuro, cheio pela estação das águas, no noroeste do Mato Grosso. Eram 22 homens sob dois comandantes: o coronel brasileiro Cândido Rondon e o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que integrava a expedição ao lado do filho Kermit. “Partimos Rio da Dúvida abaixo, rumo ao desconhecido”, escreveu Roosevelt. Se o rio corresse para o Ji-Paraná, estariam em terreno conhecido dentro de uma semana; se desaguasse no Madeira, em seis. Rondon resumiu a terceira hipótese em seu relato: “A três meses, não se sabe onde, era o Rio da Dúvida.”
O batismo era do próprio Rondon, que registrou o rio no diário em agosto de 1909, mapeando cabeceiras na Serra do Norte, sem imaginar que voltaria para percorrê-lo até o fim. Nenhum homem civilizado tinha descido aquelas águas.
A descida durou dois meses e custou três vidas. O remador Simplício afogou-se numa corredeira. Roosevelt rasgou a perna numa pedra, contraiu malária, delirou com febre de 40 graus e, numa madrugada, chamou o filho e o naturalista George Cherrie para um aviso: “Quero que vocês dois sigam em frente. Vocês conseguem sair. Eu paro aqui.” Cherrie entendeu que ele falava de suicídio; dali em diante, ninguém o deixou sozinho. Dias depois, o camarada Julio de Lima, flagrado duas vezes roubando comida, matou com um tiro à queima-roupa o cabo Paixão, o mais respeitado dos homens da expedição.
Foi nesse momento, escreveu o biógrafo Larry Rohter, que as visões de mundo dos dois comandantes colidiram de vez. Roosevelt, agitado, exigia caçar e executar o assassino: “Quem mata merece morrer. Assim é no meu país.” Rondon respondeu que aquilo era impossível no Brasil: “Quem comete crimes é julgado, não morto.” Preso, Julio teria de ser levado pela expedição faminta até a Justiça, em Manaus. Ele fugiu para a mata e nunca mais foi visto.
Em 26 de abril de 1914, dezenove homens esfarrapados chegaram à confluência com o Aripuanã. Tinham mapeado cerca de 760 quilômetros de um rio desconhecido, o maior feito geográfico do século nas Américas. Semanas antes, numa cerimônia à beira d’água, Rondon mandou fincar um marco de madeira e leu a ordem do dia: o Rio da Dúvida passava a se chamar Rio Roosevelt. O homenageado protestou, queria manter o nome antigo, e foi vencido. Num país que mal conhecia o próprio território, o feito coube a um engenheiro militar formado no sertão.
O filho de Mimoso
Rondon nasceu em maio de 1865 no povoado de Mimoso, no Mato Grosso, a quarenta quilômetros da frente de batalha da Guerra do Paraguai. A data exata ninguém sabia: no sertão do Império, não havia registro civil. O pai, um mascate pobre, morreu cinco meses antes de o filho nascer. A mãe, Claudina, descendente de bororos e terenas, morreu quando o menino tinha dois anos.
O órfão foi criado por um tio-avô, de quem tomou o sobrenome Rondon, e enviado a Cuiabá para estudar. Aos dezesseis anos, alistou-se no Exército como caminho para a Escola Militar do Rio de Janeiro, onde a matemática o salvou da pobreza e um professor lhe deu uma fé. Benjamin Constant ensinava cálculo e pregava o positivismo de Auguste Comte, a religião da humanidade que prometia ordem e progresso pela ciência. Rondon converteu-se para sempre.
Na manhã de 15 de novembro de 1889, o alferes-aluno de 24 anos entrou no quartel-general do Exército ao lado de Constant, revólver no coldre, no grupo que comunicou aos ministros do Império que estavam presos. Rondon chamou aquilo, a vida inteira, de Revolução de 1889; os historiadores preferem golpe militar, e tratam o imperador deposto com mais generosidade do que o positivista jamais tratou. Ele serviria, dali em diante, a todos os treze presidentes da Primeira República, e passaria a vida a serviço da divisa positivista estampada na bandeira nova.
Morrer, se preciso for; matar, nunca
A partir de 1890, Rondon assumiu a construção das linhas telegráficas que deviam ligar o oeste ao litoral, trabalho que culminou na comissão batizada com seu nome, aberta através de 2 mil quilômetros de território desconhecido até o Amazonas. Nessas obras, Rondon passou décadas longe da mulher, Chiquita, e dos sete filhos, que cresceram sem o pai. Roosevelt, de volta aos Estados Unidos, colocou a obra entre as maravilhas da engenharia do continente: “Ao Norte, a abertura do Canal do Panamá; ao Sul, a obra de Rondon.” Os índios que conviveram com ele chamavam o telégrafo de outra coisa: a língua de Mariano.
Foi na reconstrução das linhas de Goiás, ainda nos anos 1890, que ele fixou o lema que o tornaria célebre: morrer, se preciso for; matar, nunca. O lema foi posto à prova em outubro de 1908, na terra dos nambiquaras, quando uma flecha passou rente aos seus olhos; a segunda cravou-se na aba do capacete pendurado ao pescoço; a terceira atingiu-o no peito e ficou presa no bandoleiro de couro. Rondon sacou o Remington e atirou para o alto. Os guerreiros, vendo que o homem flechado não caía, sumiram na mata.
De volta ao acampamento, os soldados exigiram represália. Rondon os conteve com uma pergunta: “Se alguém invadisse a sua casa para matar e roubar, o que você faria?” Matariam, claro. Por que esperar que o índio se comportasse de outro modo? Em seguida, mandou deixar facões e presentes numa plataforma erguida na trilha, oferta aos mesmos homens que quase o mataram. Meses depois, os nambiquaras aceitaram o contato. Rondon jamais matou um índio em quarenta anos de sertão: Albert Einstein, de passagem pelo Brasil em 1925, indicou-o ao Prêmio Nobel da Paz.
O irmão, não o outro
Em 1910, o governo criou o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e ofereceu a direção a Rondon. Ele impôs dezessete condições por escrito, publicadas nos jornais, e a primeira era territorial: os índios deveriam manter a posse das terras em que viviam, com devolução do que foi usurpado. O positivista Rondon acreditava que os povos indígenas deviam incorporar-se ao Ocidente, mas sem que ninguém os forçasse a isso.
Rondon não falava em preservar o índio como um outro permanente, e sim em irmãos. Na autobiografia ditada a Esther de Viveiros no fim da vida, resumiu o método: conquistar a afeição e a confiança dos índios era o único meio de que eles fossem, espontaneamente, assimilando-se à civilização e acabassem por se incorporar à sociedade brasileira. Quando os bororos substituíram por quinze meses os soldados dizimados pela febre nas obras do telégrafo, ele viu no gesto um “elevado cunho de espontânea brasilidade”.
O otimismo não durou. Os arquivos do SPI encheram-se de relatórios de terras invadidas e de epidemias que varriam tribos inteiras, e as picadas abertas pela Comissão serviram de caminho ao seringueiro e ao grileiro que Rondon combatia. A corrupção tomou o órgão, extinto em 1967 em meio a um escândalo de abusos e substituído pela Funai. A visão do índio como irmão, a conquistar pela confiança, ficou no papel; o próprio Rondon, por volta de 1940, documenta Rohter, já tinha dúvidas profundas sobre o projeto.
A República como religião
O mesmo legalismo que salvou Julio de Lima do fuzilamento sumário governou a vida política de Rondon. Em 1922, no Grande Hotel de Porto Alegre, um general enviado por jovens conspiradores militares ofereceu-lhe a Presidência da República. Rondon recusou. Em 1925, comandou as tropas legalistas que cercaram os tenentes rebelados em Catanduvas, no Paraná, e fez a guerra a seu modo: aviões despejando panfletos que prometiam aos revoltosos tratamento de irmãos, assinados por General Rondon, antes de qualquer tiro.
Na madrugada de 4 de outubro de 1930, o trem em que dormia foi parado por rebeldes varguistas. Rondon, aos 65 anos, acabou posto em prisão domiciliar no mesmo Grande Hotel de Porto Alegre, onde oito anos antes lhe ofereceram o poder, e em seguida expulso do Exército. O luxo do cativeiro o irritou: pediu para ser transferido ao navio onde estavam os outros presos.
Getúlio Vargas acabou por reabilitá-lo, encarregando-o da mediação do conflito de Letícia, entre Colômbia e Peru, conduzida por quatro anos sem que se disparasse um tiro a mais. Em 1955, o Congresso o promoveu a marechal; cego, incapaz de ler o próprio discurso, ouviu o presidente do Senado ler o discurso em seu nome: “O índio, senhores senadores e deputados, é nosso irmão.” No ano seguinte, o antigo território do Guaporé foi rebatizado de Rondônia, e ele se tornou o único brasileiro a dar nome a um estado ainda em vida.
O espólio do marechal
A ditadura militar transformou Rondon em patrono do seu projeto para a Amazônia, e o lema integrar para não entregar usou o vocabulário de Rondon para fins que ele, ao fim da vida, já não endossava. A esquerda o reivindicou pela outra ponta, a da causa indígena: a Funai o celebra como fundador, e Lula relançou em 2005 o Projeto Rondon, criado pelo regime militar.
A Constituição de 1988, porém, consagrou o contrário do que Rondon pregou por meio século. Abandonou a perspectiva da assimilação e garantiu aos povos indígenas o direito de permanecer o que são, em terras demarcadas, enquanto o programa rondoniano queria fazer do índio um brasileiro entre os demais. Do velho projeto, o indigenismo atual se parece apenas com o Rondon tardio, o das dúvidas de 1940.
O revisionismo acadêmico dos anos 1990 foi além e o descreveu como agente de um projeto predatório, traidor do próprio sangue. O antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai, respondeu que os críticos cobram de Rondon uma visão que só o conhecimento posterior tornou possível, e que sua atitude ética não tinha precedente no Brasil de então nem fora dele.
Ainda assim, nenhum dos dois campos abre mão do marechal. Talvez porque o episódio de 1914 diga tanto. O Brasil mandou um oficial descer um rio que ninguém sabia aonde ia, na companhia do homem mais famoso do mundo, e o oficial voltou com o mapa, com o nome do estrangeiro dado ao rio e com o assassino poupado da bala que o ex-presidente americano exigia.
Rondon morreu na manhã de 19 de janeiro de 1958, aniversário de Auguste Comte, aos 92 anos, recitando a quem o visitava o catecismo positivista: os vivos são conduzidos pelos mortos; o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim. Na semana da morte, Manuel Bandeira escreveu: “A vida de Rondon é um conforto para todo brasileiro que ande descrente de sua terra. Mostra que nem tudo é cafajestada nestes nossos 8 milhões de quilômetros quadrados.”
















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