A Odisseia voltou a lotar salas de cinema. A versão de Christopher Nolan, em cartaz desde julho, arrastou multidões de volta a um poema de quase três mil anos, o mesmo que, mais de um século atrás, um chefe de Estado brasileiro traduzia do grego nas horas que o trono lhe deixava livres. Dom Pedro II foi o governante mais culto que o Brasil já teve, e passou a vida agindo menos como imperador do que como estudioso.

Ele se debruçou sobre o poema verso por verso, primeiro no Rio de Janeiro e depois no exílio, e não parou de traduzir Homero nem quando a República lhe tirou o trono.

A lição de grego

Os diários de Dom Pedro II registram pelo menos três anos dedicados à Odisseia, entre 1887 e 1890. Ele trabalhava a partir do original grego e conferia o resultado contra traduções alemã e francesa, num rigor de aluno aplicado. Uma anotação de setembro de 1887 resume a rotina: “Dei lição de grego traduzindo a Odisseia e comparando-a com a tradução alemã.”

O detalhe que dá peso à cena está nas datas. O trabalho atravessou o ano de 1889, em que o imperador foi deposto pela República e embarcado para a Europa de onde nunca mais voltaria, e a tradução o acompanhou no exílio.