Vivemos com os olhos grudados no relógio, como um guarda à espera do inimigo. No momento em que acordamos, uma das primeiras coisas que fazemos é checar o celular; logo em seguida, revisamos a agenda dividida entre reuniões e tarefas. Desde o raiar do dia, pensamos não em viver o presente, mas em evitar ficar para trás.

O mundo contemporâneo mede nosso valor de acordo com nossa capacidade produtiva, estabelecendo o sucesso profissional e econômico como paradigma da felicidade. Dessa forma, a passagem do tempo torna-se um recurso a ser explorado ao máximo para aumentar a produtividade. Diante dessa visão produtivista, a experiência humana é reduzida a um ritmo frenético, no qual a dimensão transcendente é eclipsada pela promessa, nunca plenamente realizada, de uma paz terrena baseada no bem-estar material.

Diante da distração imposta por essa tirania do relógio, a filosofia de Santo Agostinho de Hipona oferece um contraponto crítico. O tempo não se esgota com a passagem das horas, mas constitui o espaço onde caminhamos rumo ao imutável. Agostinho descreve nossa condição temporal como uma distentio animi: uma alma dilacerada entre o que lembra, o que observa e o que anseia. Contra essa distração, porém, surge a possibilidade da intentio: a orientação da alma para aquilo que é capaz de reunir o que o relógio dispersa.

Distensão hiperprodutiva

O paradigma produtivista reduz o tempo a uma grandeza física com a qual podemos registrar horas faturáveis, relatórios de desempenho ou metas de produção. No entanto, para Agostinho, a experiência e a mensuração do tempo não podem ser explicadas apenas pelo movimento externo das coisas, mas também se referem à distensão da alma. O presente da consciência seria um “presente distendido” (distentio) que se estende para o passado através da memória e para o futuro através da expectativa, tudo percebido no momento presente pela atenção da alma.