Porto Seguro, no sul da Bahia, adotou uma estratégia emergencial para tentar conter a expansão do peixe-leão, espécie invasora que chegou recentemente à costa do município. Pescadores recebem R$ 10 por exemplar capturado e entregue à Colônia de Pescadores Z-22. A iniciativa já resultou na retirada de 442 peixes-leão, segundo balanço divulgado no início de setembro.
A medida faz parte de uma resposta mais ampla articulada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (SEMAC), em conjunto com pescadores, pesquisadores e outros órgãos públicos. O município também elaborou um plano específico para lidar com a presença do animal, publicado no Diário Oficial em 13 de agosto de 2026.
O Plano Municipal de Ação para o Enfrentamento ao Peixe-Leão estabelece medidas de monitoramento, capacitação, comunicação de ocorrências, pesquisa científica e prevenção de acidentes. O documento considera o peixe-leão uma ameaça à biodiversidade dos ambientes recifais, à atividade pesqueira e à segurança de pescadores, mergulhadores e outros usuários do mar.
A primeira ocorrência oficial da espécie em Porto Seguro foi registrada em 12 de junho, no Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora. Antes disso, o município já havia realizado ações de sensibilização com pescadores, mergulhadores e usuários do ambiente marinho, diante da expansão do peixe-leão pela costa brasileira.
O avanço da espécie preocupa porque o peixe-leão é originário do Indo-Pacífico e apresenta características que favorecem sua rápida disseminação.
É um predador generalista, possui alta capacidade reprodutiva e não encontra predadores naturais eficientes nas águas brasileiras. Além do impacto sobre peixes e outros organismos, seus espinhos venenosos representam risco para quem entra em contato com o animal.
Captura do peixe-leão na Bahia é estratégia temporária
O pagamento aos pescadores foi estruturado como uma medida temporária para aumentar a retirada dos animais encontrados na região costeira. O próprio plano municipal prevê a possibilidade de uma entrega bonificada para pescadores e outras pessoas treinadas e autorizadas, com o objetivo de ampliar o esforço de captura e, ao mesmo tempo, gerar informações sobre a distribuição e a abundância da espécie.
A estratégia, porém, não é apresentada como uma solução definitiva. Em reunião interinstitucional realizada em julho, pesquisadores destacaram que medidas isoladas, como o pagamento por exemplar capturado, não são suficientes para controlar permanentemente a invasão.
A redução da população depende de:
- captura contínua;
- monitoramento;
- participação de pescadores, mergulhadores e outros usuários do mar.
O plano também determina que os animais capturados não sejam devolvidos vivos à água. Inicialmente, os exemplares devem ser destinados preferencialmente ao Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (LECOMAR), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), para pesquisas sobre distribuição, estrutura populacional, biologia, alimentação e reprodução.
A mobilização ocorre em um contexto maior de expansão do peixe-leão na Bahia. O primeiro registro no estado ocorreu em fevereiro de 2025, em Morro de São Paulo.
Desde então, a espécie também foi identificada em outros pontos do litoral baiano. Em Porto Seguro, a confirmação no Recife de Fora colocou a cidade entre as áreas que passaram a exigir uma resposta específica para evitar que a população se estabeleça e se espalhe.
Peixe-leão na Bahia exige resposta coordenada
Uma das preocupações apontadas no plano é a necessidade de integrar diferentes instituições. As informações sobre ocorrências devem ser compartilhadas com órgãos como Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Ibama e ICMBio, além de municípios vizinhos.
A estratégia também prevê um canal oficial para comunicação de ocorrências. Pescadores, mergulhadores, operadores de turismo e outros usuários poderão informar a presença do animal, com dados como localização, profundidade, quantidade de exemplares e fotografias.
A intenção é formar uma base de dados georreferenciada que ajude a identificar áreas de concentração e acompanhar a evolução da invasão.

O monitoramento é especialmente importante porque os primeiros registros na região podem estar relacionados a áreas mais profundas. Durante uma reunião realizada em abril, pesquisadores relataram que estudos indicam ocorrência inicial do peixe-leão frequentemente abaixo dos 30 metros de profundidade.
Na ocasião, também foi discutida a dificuldade de alcançar pescadores que trabalham nessas regiões e a necessidade de ampliar a educação ambiental antes da capacitação para captura.
O plano estabelece ainda a criação de protocolos para atendimento de acidentes envolvendo os espinhos venenosos. A previsão é estruturar um protocolo municipal específico em até 90 dias, além de capacitar equipes e orientar profissionais que atuam diretamente com o turismo e o ambiente marinho.
O consumo do peixe-leão ainda será estudado
Apesar de o peixe-leão ser considerado uma espécie invasora e de o aproveitamento econômico aparecer entre as possibilidades discutidas pelo município, o consumo ainda não é uma medida liberada automaticamente pelo plano.
O documento prevê que, depois do diagnóstico inicial, sejam avaliadas as condições técnicas, sanitárias, ambientais e econômicas para um eventual aproveitamento da espécie. Entre as possibilidades futuras estão o processamento, a comercialização e a inclusão do peixe-leão em uma cadeia produtiva local.
A ideia é que uma eventual exploração comercial seja analisada como complemento às ações de controle, e não como substituição do monitoramento ambiental. O próprio plano estabelece que a estratégia deverá ser adaptada conforme a evolução da invasão e os resultados das pesquisas.
A resposta de Porto Seguro, portanto, combina uma ação imediata de retirada dos animais com uma estrutura de acompanhamento de médio e longo prazo. O plano tem validade por prazo indeterminado e prevê avaliações periódicas, com revisão geral a cada dois anos ou antes disso, caso mudanças na presença da espécie ou novos conhecimentos científicos exijam alterações nas medidas.
Nesse cenário, o caso de Porto Seguro se torna mais um capítulo da expansão do peixe-leão na Bahia, espécie que já exige atenção de municípios, pesquisadores, pescadores e órgãos ambientais em diferentes pontos do litoral.
A retirada de centenas de exemplares pode reduzir a presença local do animal, mas o próprio planejamento municipal reconhece que o controle dependerá de acompanhamento permanente e de uma resposta coordenada.

















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