Desde a popularização das plataformas digitais, fomos treinados para identificar perigos na internet usando nossos olhos. Um site suspeito era feio, cheio de janelas indesejadas e frequentemente carregado de erros ortográficos. Esses eram os nossos “anticorpos visuais”. Hoje, no entanto, a revolução da inteligência artificial (IA) generativa neutralizou completamente esse sistema de defesa. O perigo agora vem embalado em interfaces de design impecável, reproduzindo vozes e rostos de forma indistinguível do real. Porém, continuamos tentando nos defender com as armas da década passada.

Sabemos que a inteligência artificial não criou os riscos digitais, mas ela funcionou como um amplificador sem precedentes. O levantamento Sumsub Identity Fraud Report 2025-2026 confirma isso. Segundo os dados, as tentativas de golpe envolvendo o uso de deepfakes (áudio, imagens e vídeos falsos criados com IA) cresceram 126% no Brasil no último ano. Antigamente, arquitetar uma fraude convincente exigia tempo, equipes e recursos financeiros consideráveis. O que a IA generativa fez foi derrubar esse custo de execução para perto de zero. Hoje, uma única pessoa consegue criar milhares de mensagens personalizadas ou clonar uma voz em segundos, em escala industrial.

O nosso maior ponto de vulnerabilidade atual nasce de uma perigosa confusão: acreditamos que estamos seguros porque dominamos o uso das ferramentas. Nossos jovens, por exemplo, são extremamente fluentes em navegar por aplicativos e redes sociais desde muito cedo. Mas ser fluente em tecnologia não é o mesmo que ser letrado nela.

Somos como pilotos que dirigem em alta velocidade sem nunca terem tido uma aula de mecânica; não fazemos ideia do que acontece “debaixo do capô”. Em ambientes desenhados para serem viciantes, como jogos online repletos de microtransações e coleta de dados, essa falsa sensação de domínio é a armadilha perfeita.