A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) incluiu a construção de um terminal de passageiros de cruzeiros como exigência contratual na proposta de arrendamento definitivo do Porto de Itajaí (SC), colocada em consulta pública em julho.
A medida integra um contrato de 25 anos e cerca de R$ 2,6 bilhões em investimentos previstos, e obriga a futura concessionária a entregar a estrutura, avaliada em R$ 300 milhões, até o sexto ano de operação.
O Instituto Mais Itajaí, organização sem fins lucrativos formada por mais de 60 empresas locais, investiu cerca de R$ 1 milhão na contratação da WSP, multinacional referência em projetos portuários, para desenvolver o estudo. “Entendemos que não devemos ficar apenas no discurso de pedir ou requerer as coisas ao governo. Podemos fazer algo a mais”, afirma Giovani Sandri, coordenador do grupo de trabalho do terminal no instituto.

Segundo Sandri, o estudo resultou de uma matriz de risco que avaliou duas áreas indicadas pelo município, considerando cartas náuticas, manobrabilidade e impacto sobre o tráfego de navios. A área escolhida foi o Centro Comercial Portuário, ao lado do Centro de Eventos, onde a cidade monta uma estrutura provisória para receber os cruzeiros.
O terminal projetado terá três pisos, cerca de 30 mil metros quadrados de área construída e 424 metros de cais contínuo, dimensionado para receber os maiores navios do mundo, da classe Oasis. Mesmo após o leilão e a assinatura do contrato, Sandri estima que ainda serão necessários entre três e seis anos de estudos finais e licenciamento antes da obra entrar em operação.
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Cidade opera como porto de embarque sem estrutura definitiva
Enquanto o projeto avança nas etapas regulatórias, Itajaí registra uma demanda que, segundo o instituto privado e a Secretaria de Turismo e Eventos do município, justifica a obra. Na temporada 2025/2026, a cidade recebeu 37 escalas de cinco navios de quatro armadores, entre 30 de novembro e 18 de abril, com um pouco mais de 169 mil passageiros movimentados em 140 dias de operação.
Em 33 dessas escalas houve embarque e desembarque de passageiros, o equivalente a 89,1% de toda a movimentação da temporada — foram cerca de 30 mil embarques e 32 mil desembarques de pessoas com mais de 10 anos. Apenas quatro escalas foram de trânsito, quando o navio atraca por horas e segue viagem sem troca de passageiros.
“Somos o segundo porto do Brasil que mais movimenta passageiros, atrás apenas de Santos e à frente do Rio de Janeiro”, ressalta Sandri. A Antaq situa a cidade também no contexto continental, como terceiro maior porto de cruzeiros da América Latina, atrás de Santos e Buenos Aires.
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Impacto econômico supera R$ 40 milhões por temporada
O peso financeiro da atividade é mensurável, mesmo antes da construção do terminal. A Secretaria de Turismo estima R$ 48,7 milhões movimentados na última temporada, em uma faixa de R$ 40,9 milhões a R$ 56,5 milhões, aplicando os multiplicadores de gasto do Anuário Clia Brasil 2024/25 — de R$ 380 a R$ 520 por passageiro em operações completas de embarque e desembarque — sobre o volume real apurado pela cidade.
Sandri acredita que esse número tende a crescer justamente por conta da estrutura permanente. “Existem estudos que calculam o quanto cada passageiro deixa em uma cidade. O impacto é significativo, em termos de dólar, geralmente entre US$ 80 e US$ 120 por pessoa. Se tivemos aproximadamente 160 mil passageiros circulando em Itajaí na última temporada, mais de R$ 100 milhões podem ter ficado na cidade ou movimentado a economia”. Na leitura do coordenador do grupo de trabalho, mais escalas significam mais dinheiro girando na cidade.
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Terminal pode multiplicar turistas para toda a região
Balneário Camboriú e Porto Belo também recebem cruzeiros há décadas, mas nunca como porto de embarque. Sem estrutura alfandegada própria, os navios apenas fazem escala nesses municípios, e os passageiros descem por algumas horas para passeio, retornando depois a bordo.
O professor Marcos Arnhold Júnior, pesquisador em políticas públicas do turismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), descreve que é essa lacuna que o novo terminal tem potencial de preencher — não em disputa com os vizinhos, mas como peça que falta para destravar um fluxo turístico maior.
“Itajaí pode fortalecer sua função de embarque e desembarque. Balneário Camboriú pode complementar a experiência do turista com hotelaria, gastronomia e seus atrativos. Porto Belo pode ser promovido como um destino mais focado em suas belezas naturais”, elenca o professor.
Ludiane Goulart, diretora executiva do BC Convention, instituição sem fins lucrativos que realiza o apoio à captação de eventos e a promoção de Balneário Camboriú, enxerga também ganhos com a visibilidade internacional que a operação de cruzeiros gera para os destinos vizinhos ao entrar nos roteiros comercializados pelas próprias companhias marítimas. “Quanto maior for o incentivo para que o visitante transforme sua passagem pelo cruzeiro em uma experiência completa no destino, maior será o impacto positivo para a hotelaria, o comércio, os atrativos turísticos e toda a economia local”.
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Mobilidade e hotelaria são os principais gargalos da operação
A localização de Itajaí, às margens da BR-101 e a poucos minutos do Aeroporto Internacional de Navegantes, é apontada como um dos maiores diferenciais do projeto, mas também expõe os pontos que a região precisa resolver antes de ampliar sua capacidade de receber cruzeiristas. “As pessoas conseguem chegar ao porto e ao aeroporto, mas o trânsito está sempre bastante movimentado e, por vezes, esgotado, causando atrasos”, lembra Arnhold Júnior.
A Secretaria de Turismo de Itajaí afirma trabalhar no desenho operacional para separar os fluxos dentro do porto. Embarque e desembarque devem usar vias distintas, sem cruzamento, com capacidade projetada de cerca de 480 passageiros por hora no embarque e tempos de 25 a 40 minutos dependendo do tipo de controle migratório exigido.

Arnhold Júnior acredita que esse planejamento interno precisa se estender a toda a cadeia de acesso à cidade, com integração entre aeroporto, porto, transportes terrestres e hotelaria. Por sua vez, a diretora executiva do BC Convention ressalta a capacidade da rede hoteleira da região de absorver os picos de demanda gerados pelas trocas de passageiros, destacando a musculatura do setor em Balneário Camboriú.
Mas ela também reconhece a pressão sazonal, afirmando que “o maior desafio está em períodos de altíssima ocupação, especialmente na semana do Réveillon e em algumas datas de pico da temporada de verão”. Segundo a Secretaria de Turismo de Itajaí, o cruzamento de calendários é direto: o pico da operação de cruzeiros, em dezembro e janeiro, concentra 51% da temporada e coincide com a alta estação de praia em toda a região.
O que decide se o terminal sai do papel não está mais nas mãos de Itajaí. Após a consulta pública, as contribuições serão analisadas pela Antaq, e o processo segue para apreciação do Tribunal de Contas da União antes da publicação do edital. O leilão está previsto para o primeiro semestre de 2027, embora a agência não tenha fixado data para a conclusão da obra.

















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