
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino classificou como racistas as críticas à profusão de citações de filósofos gregos e outras personalidades em suas manifestações dentro e fora da Corte. Ele citou expressões de jornais como “jurista de província”, “pessoa destituída de qualquer qualificação” e “oratória grandiloquente de província” para avaliar que há “preconceito regional”.
“Como derivação desse indisfarçável preconceito regional, de matriz racista, fazem tudo para desqualificar o meu conhecimento sobre Aristóteles e outros pensadores”, afirmou, em uma postagem deste domingo (20). O conteúdo traz uma imagem de um mapa do Brasil que destaca o Maranhão, seu estado natal.
Durante a sessão extraordinária do Supremo na última quinta-feira (15), que terminou sem uma definição sobre o futuro do ministro Alexandre de Moraes, o ministro citou Aristóteles cinco vezes.
Há, ainda, outras menções. O magistrado, que costuma pontuar sua origem cristã, citou um trecho do Sermão da Montanha em que Jesus Cristo fala do “sal que perdeu o sabor”. Ali, a parábola é reaproveitada para tratar de um órgão técnico que cede a pressões e perde sua utilidade.
A prática já é conhecida. Em meio à crise no Supremo, o ministro começa uma postagem de 6 de setembro com uma frase do filósofo Ésquilo em que diz que, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Ao final, cita um trecho bíblico em que destaca que “o diabo é o pai da mentira”.
Na publicação anterior, de 4 de setembro, começou com uma frase de Cícero: “cedam as armas à toga”, colocando entre parênteses o equivalente em latim. O magistrado colocou como uma das soluções para a crise a “consulta aos ‘clássicos'”.
Dino se defende de acusações de que suas citações não estão nas obras de Aristóteles questionando se os críticos “nunca ouviram falar de paráfrase”. Ele reconhece que, como servidor público, está sujeito a críticas, mas diz que tem o dever de “indicar” quando enxerga ofensas.
“Quem sabe o alerta serve para que melhorem a qualidade ética e técnica das “críticas” ? E para que escrevam textos menos raivosos e mais consistentes.”, completa.
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Pondé avalia se Aristóteles foi utilizado da maneira correta
Em entrevista à Folha de São Paulo, o filósofo Luís Felipe Pondé comentou as citações de todos os ministros durante a sessão e questionou as escolhas de Dino.
Em um dos momentos, o ministro atribuiu ao filósofo grego a ideia de que a ironia serviria para “descontrair o ambiente”. Pondé pontua que, na verdade, a ferramenta, para Aristóteles, está mais ligada a um gesto de modéstia ou prudência, e não necessariamente à leveza cômica.
Em outro trecho, Dino diz que a prudência é “enaltecida por Aristóteles”. O filósofo brasileiro concorda, mas questiona a intenção, observando um possível uso para deslegitimar a atuação de colegas que discordam do ministro.
Mais à frente, o magistrado fala sobre “um combate corrupto à corrupção”, mas diz que não se refere ao termo “no sentido de improbidade”, mas “em um sentido aristotélico” de “formas corrompidas de exercício de poder”. A fala serviu para justificar a questão de ordem que pede que o caso saia das mãos do presidente, Edson Fachin, e seja sorteado. Para Pondé, este é um uso correto, mas que representa um “recuo”.
Por fim, Dino questionou Luiz Fux após o ministro lembrar que o que há em relação a Moraes não é um inquérito, mas uma apuração. Para o aliado de Moraes, se “não há nada” juridicamente, o procedimento deveria ser anulado. Fux diz que discorda da “percepção”, mas que respeita o posicionamento. Dino então contesta, dizendo que “é Aristóteles, é silogismo”.
O silogismo é um forma de raciocínio dedutivo que combina duas premissas iniciais em uma conclusão que decorre delas. O exemplo tradicionalmente ensinado é: “Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”.
Pondé vê um “salto grande” na argumentação e adverte para o risco de o uso político do silogismo descambar no sofisma, quando duas premissas induzem o alvo à conclusão pretendida sem perceber as falhas lógicas no raciocínio.
















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