Fidel Castro tinha uma meta ambiciosa para comemorar os dez anos da revolução: colher 10 milhões de toneladas de açúcar na safra de 1970. Seria a maior colheita da história de Cuba.
Mas faltava gente para cortar tanta cana na ilha. E a solução, por incrível que pareça, veio justamente do outro lado da Guerra Fria: os Estados Unidos. Mais especificamente, das universidades americanas.
O problema da mão de obra chegou aos ouvidos do grupo radical Students for a Democratic Society — uma das principais organizações da esquerda dos EUA nos anos 60, que mantinha contato direto com a burocracia cubana e estava disposta a cooperar como pudesse com Fidel.
Só que naquele tempo não havia botão de curtir nem de compartilhar. E, em vez de torcer longe pela revolução, os jovens simpatizantes do comunismo decidiram pagar do próprio bolso para ir até Cuba ajudar no campo.
Nascia então a Brigada Venceremos, projeto que mistura turismo político, recrutamento e rede de influência. Em sua primeira “missão”, o coletivo enviou 216 americanos a Cuba pelo México, driblando as restrições do governo às viagens para a ilha. Durante seis semanas, eles não só colocaram a mão na massa como participaram de atividades de doutrinação pelo regime cubano.
Agora, mais de 50 anos e cerca de 10 mil participantes depois, o grupo é um dos assuntos do relatório “Cuba: A Capital do Comunismo do Século XXI”, que mapeia a influência da ditadura da ilha em todo o mundo. Publicado em julho pelo Departamento de Estado americano, o documento de 100 páginas aborda operações de inteligência, apoio a movimentos armados e o uso de organizações de fachada para induzir o debate político ocidental.
O novo estudo confirma uma informação que outros levantamentos realizados desde a década de 70 já apontavam: a Brigada Venceremos foi uma das mais perigosas iniciativas de infiltração ideológica promovidas por um governo estrangeiro nos EUA. Mas o projeto não só continua existindo como forma quadros políticos no país — com destaque para Karen Bass, atual prefeita democrata de Los Angeles, que por pouco não foi escolhida para ser vice de Joe Biden.
Luta armada
Fidel não conseguiu as 10 milhões de toneladas de açúcar. Mas o trabalho braçal era só metade do projeto, organizado pela ditadura com a ajuda da militante americana Bernardine Dohrn (uma das fundadoras do Weather Underground, grupo de extrema-esquerda que defendia a luta armada contra o governo dos EUA).
A outra metade do tour era voltada para a formação política: palestras sobre imperialismo, revolução internacional e os princípios da Revolução Cubana. Tudo de acordo com a cartilha elaborada pelo Instituto Cubano de Amizade com os Povos, órgão estatal que ainda hoje coordena essas delegações.
Karen Bass tinha 19 anos em 1973, quando embarcou para a ilha e passou o verão construindo casas. Por “coincidência”, seu antecessor na prefeitura de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, também passou pelo mesmo acampamento na juventude.
A homenagem que pesou
O interesse de Karen Bass por Cuba começou ainda no ensino médio, em Los Angeles, por influência de um professor de espanhol entusiasmado com a revolução sangrenta comandada por Fidel Castro e Che Guevara.
Aos 19 anos, em 1973, Bass foi à ilha pela primeira vez. A viagem foi custeada por ela mesma — que, a exemplo de outros estudantes e voluntários da Brigada, chegavam a pagar mais de R$ 2 mil para participar da excursão doutrinária.
Ao todo, Bass esteve 16 vezes em Cuba, incluindo viagens como congressista e uma visita oficial ao lado de Barack Obama, em 2016. Naquele mesmo ano, depois que Fidel morreu, ela chamou o ditador de “Comandante em Chefe” e disse que sua morte era “uma grande perda para o povo de Cuba”.
A homenagem pesou na disputa pela vice-presidência em 2020, quando Joe Biden avaliava seu nome para a chapa. Na “moderninha” Califórnia, a relação de Bass com Cuba não era um grande problema. Mas, na Flórida, onde o eleitorado cubano-americano tem uma força eleitoral mais decisiva, sua ligação com o regime de Fidel virou um problema.
Karen Bass chegou a mudar o tom e dizer que “não repetiria aquelas palavras”. Kamala Harris acabou ficando com a vaga.
Política, educação e Direito
A lista de ex-brigadistas levantada pelo governo dos EUA mostra a penetração do grupo na política, nas universidades e em organizações radicais do país.
A sindicalista Karen Nussbaum virou diretora do Departamento de Mulheres do Ministério do Trabalho na gestão Bill Clinton. Johnnetta Cole, antropóloga, atuou como reitora de faculdades tradicionais e quase foi Secretária de Educação dos EUA. Leslie Cagan, escritora e militante socialista, comandou a campanha que elegeu David Dinkins prefeito de Nova York em 1989.
Em comum, além da temporada de suor revolucionário sob o sol cubano, todas migraram da militância jovem para posições de prestígio no Partido Democrata.
Ainda há a turma que permaneceu nas salas de aula ou ingressou no Direito. O historiador Michael Kazin virou professor na Universidade de Georgetown. Roxanne Dunbar-Ortiz, também historiadora, tornou-se professora na Universidade Estadual da Califórnia.
Michael Ratner presidiu o National Lawyers Guild (associação progressista de advogados ativistas). E a já citada Bernardine Dohrn lecionou por mais de duas décadas na faculdade de Direito da Northwestern University.
Arsenal de armas e explosivos
Uma parte da militância, porém, seguiu o caminho da violência armada. A ativista Susan Rosenberg, mais tarde conhecida por sua defesa dos direitos dos presos, é um exemplo emblemático desse grupo.
Susan migrou da Brigada Venceremos para a May 19th Communist Organization (M19CO), uma milícia terrorista formada apenas por mulheres e que defendia ações extremas contra o próprio governo americano. Em 1984, ela foi presa por transportar um arsenal de armas automáticas e mais de 330 quilos de explosivos.
Condenada a 58 anos de prisão, Susan cumpriu 16, em seis diferentes presídios federais. Em janeiro de 2001, no último dia do mandato de Bill Clinton, ela recebeu o perdão presidencial e foi libertada. Hoje, a militante faz parte do conselho da ONG Thousand Currents, uma das principais patrocinadoras do movimento Black Lives Matter.
Nova roupagem
Mas a Brigada Venceremos não ficou presa aos anos 70. Em 2025, o grupo realizou sua 53ª expedição a Cuba, dessa vez com uma nova roupagem: foi a primeira versão “queer e trans” do programa, para aproximar ativistas pela diversidade dos dois países.
Atualmente, o projeto conta com o apoio do People’s Forum, ONG de Nova York ligada ao empresário Neville Roy Singham. Fundador da companhia de software Thoughtworks, vendida por US$ 785 milhões em 2017, Singham vive em Xangai e é conhecido por patrocinar organizações alinhadas ao Partido Comunista Chinês.
O turismo político, no entanto, pode estar com os dias contados. Em junho deste ano, os EUA sancionaram o Instituto Cubano de Amizade com os Povos e a Amistur — agência de viagens estatal que fatura alguns bons dólares com a Brigada. A medida, que considera os dois órgãos braços da espionagem cubana, busca atrapalhar a logística das expedições e cortar uma tradicional fonte de recursos para o regime.
Depois de quase seis décadas levando jovens americanos à ilha para experimentar a utopia comunista, a Brigada Venceremos está descobrindo que até a solidariedade revolucionária precisa da autorização do “império”.
VEJA TAMBÉM:
-

Em hotel cinco estrelas de Cuba, jornalistas de esquerda discutem “liberdade” e “fake news”

















Leave a Reply