
Um jogador de futebol. Quem diria?! Gustavo Scarpa, meia do Atlético Mineiro (não confundir com seu primo perna-de-pau, o Athletico Paranaense), fez uma resenha de “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói. Vi um trechinho. “Ele é um cara esforçado, educado, estudioso”, diz o jogador sobre o homem que vai morrer e cuja morte será um estorvo para todos os que até então o admiravam. A recomendação de Scarpa transformou o livro no mais vendido do país. Lembrando que o fato de ser o mais vendido não significa que será o mais lido. Mas ainda assim.
Se você não leu ainda “A Morte de Ivan Ilitch”, portanto, talvez esta seja a hora. Não porque eu estou falando, e sim porque Gustavo Scarpa está. Mas vale aqui o aviso que ao jogador escapa: se confrontar com as realizações vazias da vida, e com os muitos atalhos que a gente pega para alcançá-las, pode não ser tão agradável assim. Na verdade, em apenas 96 páginas (na edição da 34) Tolstói propõe um autoexame difícil, ao qual poucos, muito poucos, estão dispostos. Talvez você tenha feito tudo o que fez e ainda faz para nada. Para nada. Já parou para pensar nessa possibilidade?
A base vem forte
Já parou para pensar que um dia seus uivos de agonia serão apenas um incômodo para quem hoje diz que te ama ou admira? Duvido, porque é difícil aceitar essa premissa. Logo no comecinho do livro, aliás, há uma cena que sempre me causa pena, é isso!, uma pena profunda tanto de Ivan Ilitch quanto de mim e até desses idiotas que vendem a alma em troca de viagens no jatinho de banqueiro: uma vez morto o protagonista, os colegas da repartição começam a cobiçar seu posto e reclamam do incômodo de ter de ir ao velório. E justamente na noite em que eles costumavam se reunir para um carteado qualquer. É cruel. Crudelíssimo.
Em “A Morte de Ivan Ilitch”, Tolstói não expõe um vilão. Ivan Ilitch é de fato “esforçado, educado e estudioso”, como observa o jogador. Talvez ele seja até… feliz. O que não é garantia de absolutamente nada. Aliás, estou escrevendo e, sem pegar o livro na estante, me lembrando de ter sublinhado as várias vezes em que a narrativa insiste que está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem. Até não estar. A leitura que Gustavo Scarpa faz é simples e honesta. Melhor que a de muito literato por aí. Ele percebe que a grande dúvida de Ivan Ilitch é se viveu “da forma correta”. Você vive, eu vivo? Qual é a forma correta de se viver? No final da resenha, o jogador faz uma admirável associação entre o livro e um trecho da carta de São Paulo aos Filipenses. A base vem forte.
















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