
“A capacidade de usar um computador quântico será uma virada de jogo”, disse CharinaChou, COO do Google Quantum AI durante o festival South bySouthwest 2025. Tanto para o bem quanto para o mal. O potencial e as possibilidades da computação quântica podem transformar setores inteiros da economia. Os desafios, porém, crescem na mesma proporção. Se de um lado as oportunidades se multiplicam com o que promete ser uma das maiores revoluções tecnológicas deste século, a aceleração exponencial de determinados tipos de computação impõe ameaças críticas para a cibersegurança. E é preciso estar pronto para elas.
Em estudo da Forrester sobre o tema, especialistas da indústria levantaram a hipótese de que os computadores quânticos serão capazes de quebrar grande parte dos criptosistemas atuais entre os próximos 5 e 30 anos. Com isso, as mudanças na arquitetura corporativa e na infraestrutura de segurança cibernética de hoje são inevitáveis e urgentes.
A exemplo do que ocorreu com a Inteligência Artificial, que começou a ser pesquisada no final dos anos 50, mas somente há pouco tempo experimentou uma evolução exponencial, pode ocorrer o mesmo com a tecnologia quântica. Com pesquisas aceleradas, não dá para prever exatamente quando um processador quântico criptograficamente relevante virá à tona e será popularizado; mas não é prudente apostar na demora.
Para se ter uma ideia da velocidade dos algoritmos e processadores quânticos em relação a dos sistemas clássicos, os protocolos criptográficos assimétricos , que atualmente exigiriam trilhões de anos para serem quebrados por força bruta usando computadores clássicos, poderiam ser comprometidos em questão de minutos por um computador quântico suficientemente poderoso.
Diante das incertezas, num cenário em que a desglobalização coloca relações entre os países e a segurança cibernética no centro das discussões, é imperativo garantir que nossas informações permaneçam seguras em um futuro dominado pela computação quântica
Com essa capacidade, processadores quânticos quebrariam por exemplo assinaturas digitais e protocolos de negociação de chaves, usados em sistemas sensíveis e de uso generalizado como e-commerce e home banking. Basicamente, toda a segurança da Internet moderna seria destruída, para não falar das ameaças a infraestruturas críticas como energia, água, transportes e defesa.
A computação quântica também pode criar outras formas de ataque que ainda não compreendemos. A capacidade de processar e analisar grandes volumes de dados rapidamente permite a disseminação de novos tipos de malware ou técnicas de invasão que são atualmente inconcebíveis e inimagináveis.
Passo importante para as empresas na jornada em direção à criptografia pós-quântica (CNP) é se conscientizar dos desenvolvimentos no ambiente normativo e regulatório. Os esforços para adotar a criptografia resistente a processadores quânticos já começaram há mais de dez anos. Nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) tem trabalhado forte na definição de padrões, assim como o Instituto Europeu de Padrões de Telecomunicações.
No Brasil, órgãos ligados à segurança da informação e infraestrutura crítica, como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e entidades como o CERT.br/NIC.br, acompanham o processo de padronização internacional do NIST. Embora ainda não existam (até a data atual) normas ou diretrizes brasileiras específicas exigindo a adoção de CPQ, é esperado que o país siga as tendências e padrões internacionais conforme eles se consolidem.
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A adaptação para a era quântica também requer uma abordagem colaborativa com envolvimento de governos, indústria e organizações de cibersegurança. O desenvolvimento de sistemas alinhados com padrões internacionais será essencial para assegurar que as novas tecnologias sejam adotadas de forma uniforme e eficaz. Além disso, investir em pesquisa e capacitação para formar especialistas em computação quântica e segurança é vital para enfrentar os futuros desafios.
Diante das incertezas, num cenário em que a desglobalização coloca relações entre os países e a segurança cibernética no centro das discussões, é imperativo garantir que nossas informações permaneçam seguras em um futuro dominado pela computação quântica. Nesse contexto, é preciso tomar medidas proativas, como adotar agora esquemas híbridos que, como o próprio nome já diz, consistem em esquemas criptográficos multi-algoritmos onde pelo menos um dos algoritmos é pós-quântico e pelo menos um outro algoritmo é clássico.
Ambos os algoritmos são combinados para fornecer o mesmo serviço, como assinatura digital e troca de chaves, para citar exemplos, de forma que se o algoritmo clássico for quebrado a segurança continua garantida pelo algoritmo pós-quântico e vice-versa.
Um princípio básico de gestão de riscos é que, em caso de total incerteza, como a ausência de estimativas confiáveis da probabilidade de um evento ocorrer em um determinado período, a única estratégia racional é reduzir a exposição a perdas.
Fabio Maia é ChiefResearch do Centro Integrado de Segurança em Sistemas Avançados (CISSA) e Principal Technical Manager do Centro de Estudos e Sistemas Avançadas do Recife (CESAR).















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