Como se não bastasse toda a tensão que já cerca o STF, o ministro André Mendonça ainda levou um puxão de orelha de seus “irmãos de fé”. No último dia 10, o grupo conhecido como Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito publicou uma carta aberta ao magistrado cobrando serenidade e imparcialidade na condução do caso do Banco Master.
Mas a bronca não parou por aí. O documento também avisava que a religião não deveria servir de “escudo, palanque ou instrumento eleitoral” — um conselho curioso vindo de uma organização totalmente mergulhada na disputa política.
Em 2022, por exemplo, a Frente declarou apoio a Lula já no primeiro turno e afirmou em um manifesto que o Estado de Direito deveria deter as “forças destruidoras do Anti-Messias”. O texto, baseado em uma interpretação bíblica, afirmava não existir outra opção, “diante de Deus, nosso Pai, e de Cristo Jesus, nosso Senhor”, senão trabalhar pela derrota de Jair Bolsonaro.
“Anti-Messias” é uma expressão teológica que vem de uma leitura da Segunda Carta aos Tessalonicenses (um dos textos do Novo Testamento de autoria do apóstolo Paulo). No manifesto, o termo aparece ligado à pandemia, à fome, ao armamentismo, à militarização e à violência contra indígenas, negros, mulheres e outras minorias.
Na visão da Frente, Bolsonaro não era só um adversário político. O ex-presidente encarnava todos os males que deveriam ser combatidos. Arrancá-lo do poder era também uma questão de fé.
Grupo guerrilheiro
A história do grupo ajuda a entender tanto a cobrança a André Mendonça quanto a demonização de Jair Bolsonaro. Criada em 2016, em meio ao impeachment de Dilma Rousseff, a Frente surgiu como uma resposta à aproximação cada vez maior entre o meio evangélico e a direita política.
Um dos fundadores é o sociólogo Anivaldo Padilha, pai do cacique petista Alexandre Padilha, ministro da Saúde de Lula. Ex-membro da organização guerrilheira Ação Popular, Anivaldo foi preso durante o regime militar e, após oito anos de exílio, tornou-se referência no Brasil da teologia da missão integral, que associa a pregação do Evangelho à justiça social e aos direitos humanos.
Outro pioneiro da Frente é Ariovaldo Ramos, pastor, teólogo, escritor e ativista social. Também ligado à missão integral, Ramos é um dos grandes articuladores da esquerda no meio evangélico e colaborou com o programa Fome Zero durante o primeiro governo Lula.
A fiadora de Janja
Mas a porta-voz e maior articuladora é a jornalista Nilza Valéria Zacarias. Uma das coordenadoras do movimento, Nilza afirma que a bancada conservadora em Brasília não representa a verdadeira base evangélica — composta, segundo ela, principalmente por mulheres negras e pobres.
Graças a um projeto de adaptar o Evangelho às ideias progressistas, a jornalista ganhou trânsito livre no Palácio do Planalto. E hoje ela atua como uma espécie de fiadora cristã de Janja nas agendas da primeira-dama pelas periferias do país.
Reverter a resistência evangélica ao PT é o objetivo da peregrinação eleitoral de Janja. Porém, no discurso de Nilza, a estratégia é maquiada com um verniz religioso. “O povo evangélico gosta do diálogo. A gente tem um princípio de irmandade muito forte, e os irmãos conversam”, disse a jornalista para o site Metrópoles.
No entanto, por mais que a primeira-dama rode o Brasil com seus “crentes de estimação”, ainda há uma barreira gigante para convencer o eleitorado evangélico: as pautas morais. “Como defendemos o Estado laico, a tolerância religiosa e somos, por exemplo, a favor da legalização do aborto, eles não vão dar nem R$ 1 para a gente”, afirmou Nilza à revista Marie Claire.
O dinheiro, então, vem de outro lugar. A Frente recorre a editais e ao apoio de organizações filantrópicas, entre elas o Fundo Brasil de Direitos Humanos — entidade abastecida com dólares de megafundações internacionais como a Ford Foundation e a Open Society Foundations, de George Soros. São exemplos de uma rede internacional que financia, mundo afora, iniciativas ligadas a pautas progressistas e identitárias.
Não à toa, o grupo já está fazendo política fora do Brasil. Em agosto, representantes da Frente foram a Washington entregar aos gabinetes de três congressistas do Partido Democrata uma carta de “alerta” sobre possíveis interferências do governo dos EUA nas eleições brasileiras e o uso da religião para fazer campanha por Flávio Bolsonaro.
Bíblia petista
Por aqui, a militância nas igrejas é embasada na Bíblia, de onde a Frente tenta extrair alguma justificativa divina para seu programa de esquerda. O fundador Ariovaldo Ramos, que se define como “totalmente anticapitalista”, é um dos mais esforçados garimpeiros dessa mineração bíblica.
Ao interpretar a comunidade cristã de Jerusalém descrita no livro de Atos, Ramos diz que os primeiros cristãos deixaram de lado a propriedade privada e passaram a compartilhar seus bens. Ele inclusive chama essa de experiência de “a primeira sociedade comunista”.
O mesmo raciocínio aparece na abordagem a outros temas. O grupo associa o fim da escala 6×1 ao princípio bíblico do descanso. Já o racismo ganha o status de pecado. E as cotas são apresentadas como formas de reparação inspiradas em episódios do Êxodo.
Ou seja, a Frente não recorre à Bíblia apenas para defender a pauta progressista. A ideia é mostrar que o projeto do PT já está todo lá.
A manobra, no entanto, não funciona quando o assunto é a legalização do aborto. Sem conseguir extrair das Escrituras um único versículo favorável à pauta, o grupo vai por outro caminho: apela para a tese do “Estado laico” e dos “direitos reprodutivos” (a defesa de que a decisão de interromper uma gravidez deve caber à própria mulher, e não ser imposta pelo Estado com base em princípios religiosos).
“Papo de Crente”
Essa leitura política do Evangelho também abre portas. É o caso da própria Nilza, que em 2023 ganhou uma vaga no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência, o chamado “Conselhão”.
Desde então, Nilza não largou mais o casal presidencial. Ela organiza os encontros regionais de Janja com mulheres evangélicas, acompanha Lula em reuniões com lideranças cristãs internacionais e ajudou a lançar o jingle pró-reeleição “Crente pode sim em Lula votar”.
Mas o auge da parceria talvez seja a participação de Lula e Janja no Papo de Crente, principal programa do canal da Frente no YouTube.
Gravada no Palácio da Alvorada, a entrevista começou com uma oração do pastor Marco Davi de Oliveira, conhecido por seus estudos sobre racismo nas igrejas protestantes. Ele também pediu bênçãos, proteção e sabedoria para o presidente e o governo.
Ao longo da conversa, Lula falou dos programas sociais do PT e atribuiu sua volta à Presidência a um “compromisso de fé” com os pobres. No encerramento, Janja cantou um trecho de “Deus Cuida de Mim”, clássico da música gospel do pastor Kleber Lucas, uma das poucas estrelas do gênero a apoiar publicamente o petista em 2022.
Regravada naquele ano num dueto com Caetano Veloso, a canção virou uma espécie de símbolo da tentativa de aproximação do lulismo com os evangélicos — a trilha sonora de um governo que jura gostar de igreja.
“Esqueça de mim”
Ainda no Papo de Crente, o presidente garantiu que não usaria a religião para conseguir votos. “Se alguém achar que eu vou ganhar uma eleição porque eu vou numa igreja fazer discurso, esqueça de mim. Não me faço utilizar [sic] uma igreja como palanque”, disse.
Lula ainda reivindicou para si o monopólio de uma relação, digamos, “pura” com os cristãos. “A minha relação com a igreja é essa, é a relação verdadeira. Não tem mentira, não tem uso eleitoral”.
Tudo isso depois de orações, bênçãos, “compromisso de fé” e a cantoria de Janja. E é essa mesma Frente de Evangélicos que agora cobra de André Mendonça que sua crença não vire “escudo, palanque ou instrumento eleitoral”.
A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com Nilza Valéria Zacarias, que aceitou dar uma entrevista. As perguntas foram encaminhadas por escrito para a jornalista, mas não houve retorno até a conclusão deste texto.
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