Gilmar Mendes não criou sozinho o modelo de atuação que hoje marca o Supremo Tribunal Federal (STF), mas foi o ministro que ampliou, de forma consistente, os limites informais do cargo. Ao combinar a função de ministro do STF com a de empresário do setor jurídico e educacional, além de manter forte presença no debate público e intensa articulação institucional, Gilmar ajudou a estabelecer práticas incompatíveis com o grau de distanciamento que se espera de integrantes da mais alta Corte do país, mas que, ao longo dos anos, passaram a ser incorporadas por outros ministros.

Ao longo de mais de duas décadas no STF, Gilmar Mendes associou à atividade jurisdicional uma extensa rede de influência construída por meio do IDP, de fóruns que reúnem autoridades e empresários – como o Gilmarpalooza –, da presença frequente no debate público e da interlocução com outros centros de poder.

Essa transformação ultrapassa a discussão sobre conflitos de interesse. A aproximação entre ministros, empresários e advogados ajudou a normalizar relações que, em razão do poder exercido pela magistratura, comprometem a independência judicial e a confiança pública nas decisões da Corte.

Essa interpretação de que Gilmar Mendes ajudou a redefinir os contornos informais do cargo de ministro do STF é compartilhada por quem acompanha o Judiciário. Para a jurista Katia Magalhães, especialista em responsabilidade civil, a mudança não pode ser atribuída exclusivamente a um único personagem, mas Gilmar Mendes foi um dos principais vetores desse processo. “Foi uma macromudança, a partir de micromudanças que foram ocorrendo ao longo de décadas”, afirma.