Um humilde professor é obrigado a abandonar seu país natal, o Haiti, por causa da fome e da violência. Ele então se torna um imigrante, atravessando países como a República Dominicana, o Brasil e a “temida” América de Donald Trump.
Este é o enredo de C’était ça ou mourir (“Era isso ou morrer”, em tradução livre), do canadense-haitiano Thélyson Orélien, obra vencedora de cinco prêmios literários na França neste ano. O livro alçou o autor ao estrelato, mas o sucesso trouxe uma grave acusação: a de que o texto foi produzido inteiramente com inteligência artificial.
A denúncia partiu de um perfil em francês no X chamado Balance ton Claude — em português, “Entregue seu Claude”, numa referência a uma das ferramentas de IA mais utilizadas. A conta se dedica a identificar textos que, segundo seus responsáveis, foram produzidos com inteligência artificial sem que isso seja informado ao público. Foi nessa “malha fina” que a obra de Orélien caiu.
O autor negou veementemente as acusações. Segundo ele, a escrita é originária do dialeto haitiano, que talvez a IA desconheça. Thélyson Orélien ainda disse que não se interessa pela escrita por meio de máquinas e, para arrematar, acusou seus detratores de racismo.
A editora canadense Boréal, que inicialmente defendeu o autor, suspendeu a promoção do livro após surgirem também acusações de plágio em textos antigos de Orélien. Em um comunicado, a empresa afirmou que não é possível confirmar ou negar, por enquanto, o uso de IA no romance.
“Zona cinzenta moral”
A ferramenta que o perfil francês usa para detectar IA é, paradoxalmente, outra IA: o Pangram. A plataforma analisa textos e imagens para descobrir se conteúdos foram produzidos por humanos ou por inteligência artificial, com alta taxa de acerto. Após submeter o romance, o programa identificou mais de 90% de produção “artificial”.
“As imagens, as repetições e os ritmos são uma fala viva, são meus”, diz Thélyson Orélien. Chamam a atenção, porém, algumas imagens estranhas, como uma rua que sobe e desce “como um deputado em campanha eleitoral”. Há, ainda, repetições que parecem típicas da IA, como a sucessão de três adjetivos.
Uma risada é “seca, magra, torta”, enquanto um personagem é “idiota, imbecil e louco”. Outras afirmações são feitas de forma retórica para demonstrar uma profundidade falsa: “De que adianta ter uma carteira de identidade em um país que já não existe?”.
A conta Balance ton Claude se explicou após o caso ganhar repercussão: “Orélien provavelmente atuou em uma zona cinzenta moral. Ele não imaginava que o sucesso de seu livro alcançaria uma escala nacional. E, se nos pareceu importante denunciar a fraude, nos parece igualmente importante ter compaixão e empatia por ele. Talvez até apoiá-lo nesse período difícil que ele deve estar enfrentando”.
O caso do Jabuti
No mais importante prêmio literário do Brasil, o Jabuti, a regra é clara: “Não será aceita a inscrição de livros que tenham empregado ferramentas de inteligência artificial, incluindo tecnologias assemelhadas e aplicações que as incorporam, em tarefas autorais”. Ainda segundo os organizadores, se a ferramenta for utilizada, ela deve ser devidamente anunciada.
Diogo Fontana, editor da Danúbio, que concorre neste ano com cinco livros ao Jabuti, diz que é difícil combater o uso de IA. “Vão trancá-los e obrigá-los a escrever com caneta tinteiro? As próprias ferramentas de detecção são IA, o que pode levar a denunciações caluniosas. Nunca se soube, historicamente, os processos de escrita de um autor”, ele diz.
Um caso semelhante ao do escritor francês ocorreu na edição de 2023, na categoria de “Ilustração”. O poeta e designer Vicente Pessôa foi indicado para a semifinal com o projeto gráfico de Frankenstein, de Mary Shelley (Clube de Literatura Clássica, 2022). Porém, um dia depois, foi desclassificado por uso de IA na obra.
Matheus Araújo é editor-chefe da Pêssoa Editora, em que Vicente hoje atua como diretor de arte e designer gráfico. Em relação à polêmica, ele explica: “O uso foi declarado e estava na ficha de créditos do livro, assim como em todo o marketing da obra. Não houve segredo, e os jurados julgaram que a obra merecia estar entre os semifinalistas. Somente quando um outro grupo apontou o uso eles recuaram. Na prática, eles não haviam sentido a diferença entre uma coisa e outra”.
Tiro no pé
Araújo lembra que o meio editorial inteiro já usa IA em várias etapas de publicação de livros, desde a revisão e a diagramação até o marketing. “Os que a rejeitam publicamente, e fazem disso seu marketing, podem dar um tiro no próprio pé: e quando a IA for absolutamente incontornável, o que eles farão? Fecharão as portas e esquecerão a literatura?”, ele questiona.
O uso da inteligência artificial está disseminado, e quase todos os setores recorrem aos vários benefícios que ela traz. Diogo Fontana, porém, faz uma ressalva sobre o resultado. “Não sei se é possível apresentar literatura de qualidade por IA. A IA é péssima para a escrita e qualquer pessoa com ouvido sabe que ela escreve mal”, afirma.
VEJA TAMBÉM:
-

Estudo do MIT: ferramentas de IA podem levar usuários a “espiral de delírio”

















Leave a Reply