A relação de Daniel Vorcaro com Frederic Kachar, até então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, é um dos episódios mais constrangedores revelados pelo escândalo do Banco Master. As mensagens trocadas entre os dois mostram uma intimidade que ultrapassava os limites de uma relação comercial. Por isso, Kachar não durou mais de 24 horas na empresa depois que as mensagens foram reveladas. Em meio a conversas pessoais, convites e negócios, havia espaço para discutir reportagens, reclamar de jornalistas e tratar de interesses publicitários. O desligamento do executivo, anunciado pela Globo, encerra um capítulo, mas não resolve o problema que ele expôs.

Há muito tempo, as empresas jornalísticas adotaram uma divisão de responsabilidades conhecida como separação entre “Igreja” e “Estado”. A Igreja representa a redação, responsável pela apuração e pelo conteúdo. O Estado reúne as atividades comerciais que sustentam a operação, especialmente a publicidade.

A premissa é que ambos precisam prosperar, mas sem que o dinheiro dos anunciantes interfira nas decisões editoriais. Esse arranjo nunca dependeu apenas de princípios éticos. Era, sobretudo, uma fórmula de negócio. Um jornal respeitado atraía leitores e, consequentemente, anunciantes. A independência da redação produzia a credibilidade que a área comercial vendia ao mercado.

Quando o anunciante passa a interferir no conteúdo, a empresa coloca em risco seu principal patrimônio