Um líder político brasileiro sente que está sendo perseguido pelo governo de turno. Para evitar sua prisão, conta com a ajuda do governo norte-americano para cruzar o equador rumo à “Terra da Liberdade”. Sua decisão de viajar para os Estados Unidos é reconhecida por seus pares como um importante passo em nome dos direitos humanos. O caso descrito até parece recente, mas ocorreu no fim dos anos 1970 envolvendo Leonel Brizola, um dos luminares da esquerda no Brasil.
Esta mesma esquerda não economiza elogios a Brizola, e trata o político como um dos principais símbolos do trabalhismo nacionalista. O ex-governador gaúcho é costumeiramente lembrado como um adversário da ditadura militar, defensor das reformas de base e crítico da influência dos Estados Unidos na América Latina. Mas essa mesma memória talvez falhe quando o assunto for a saída dele do Uruguai em direção aos EUA sob ajuda direta do governo de Jimmy Carter.
A operação de retirada de Brizola envolveu diretamente a Casa Branca, a Embaixada dos Estados Unidos em Montevidéu e até a Agência Central de Inteligência norte-americana, a famosa CIA. E tudo isso sob a condescendência da esquerda anti-imperialista, na época e agora.
VEJA TAMBÉM:
-

Cuba e China ofereceram ajuda a Brizola, mostram documentos da CIA
Relembre os motivos que levaram Brizola a ir para o Uruguai
Quando Jânio Quadros renunciou à presidência depois de apenas sete meses no cargo em 1961, seu vice, João Goulart, quase não tomou posse. Acusado de ser simpático ao comunismo, Jango só assumiu o cargo por conta de um acordo costurado por Brizola, que também era seu cunhado. A Campanha da Legalidade ajudou a instaurar o parlamentarismo no Brasil, reduzindo assim os poderes do presidente da República.
Em 1963, um plebiscito devolveu os poderes plenos de presidente para Jango. Enquanto isso, o recém-eleito deputado federal Brizola liderava a Frente de Mobilização Popular. Na Câmara dos Deputados, ele pressionou Jango para que implementasse as chamadas “reformas de base”, que incluíam as reformas agrária, tributária e bancária.
Em 13 de março de 1964, o presidente fez um grande comício no Rio de Janeiro no qual cobrou os parlamentares para que aprovassem as reformas de base. Brizola, em sua fala, criticou o Congresso Nacional por criar obstáculos à vontade do povo. Uma semana depois, um memorando do general Castelo Branco chamava a atenção para a agitação que tomava conta do país.
Logo após os militares assumirem o poder, em 31 de março daquele ano, Jango foi para Porto Alegre, onde Brizola lhe garantiu que conseguiria resistir graças ao apoio de um comandante do Exército. Goulart não aceitou a proposta e se exilou no Uruguai. Brizola permaneceu no Brasil até maio, quando também cruzou a fronteira e se fixou no país vizinho. Seu nome constava do Ato Institucional no 1, que estabelecia a cassação de mandatos de parlamentares e a suspensão de direitos políticos por dez anos.
VEJA TAMBÉM:
-

Em 1983, Brizola fechou Subsecretaria de Segurança Pública do Rio; leia o decreto
Esquema de segurança dos EUA envolveu passagem de Brizola pela Argentina
Entre 1965 e 1971, Brizola foi mantido sob controle da polícia uruguaia no Balneário Atlântida, nos arredores de Montevidéu. Ainda assim, articulou movimentos de oposição e chegou a participar de planos de resistência armada contra o regime brasileiro. Em 1977, os EUA entram na história, primeiro fazendo contato com o político brasileiro e depois atuando para que ele deixasse a América do Sul em segurança rumo a Nova York.
A Casa Branca, liderada pelo democrata Jimmy Carter, procurou Brizola por meio de um intermediário para organizar uma reunião entre um representante do governo dos EUA e o ex-governador do RS. No dia 15 de setembro, sob uma alegada quebra das regras do asilo político, o brasileiro foi expulso do Uruguai. Ele teria apenas cinco dias para sair do país.
No dia seguinte, Brizola pediu asilo político aos EUA, e teve o pedido atendido em menos de 72 horas. Mas não havia voos diretos ligando os dois países, e o brasileiro precisaria fazer uma escala no Brasil ou passar pela Argentina para só então seguir para a América do Norte.
Por ser contrário ao regime de governo brasileiro, Brizola seria preso se cruzasse a fronteira. Ele também havia entrado na lista negra do governo argentino, controlado por militares. O gaúcho foi, então, escoltado por agentes norte-americanos desde a embaixada dos EUA em Montevidéu até chegar em Buenos Aires, onde teria ficado hospedado em um apartamento ligado à CIA.
Ainda sob escolta americana, Brizola e sua esposa, Neuza, foram levados até o aeroporto Internacional de Ezeiza, onde embarcariam em um avião da companhia aérea Braniff. O voo para Nova York teria duas escalas, em Santiago, no Chile, e Miami, com a possibilidade de uma terceira parada técnica em Guayaquil, no Ecuador.
No último momento, a equipe acabou embarcando o casal em um voo da Aerolíneas Argentinas. O motivo: a companhia tinha um voo direto para o destino, o que representava mais segurança para Brizola. O casal chegou em segurança aos Estados Unidos no dia 22 de setembro de 1977.
VEJA TAMBÉM:
- Como STF, Brizola proibiu operações em favelas no Rio há 40 anos; medida fortalece facções
O episódio produziu uma ironia histórica: Brizola, que havia nacionalizado empresas americanas quando governou o Rio Grande do Sul e construído parte de sua trajetória política em torno do nacionalismo e do antiamericanismo, passou a depender da proteção diplomática dos Estados Unidos para escapar de uma situação de risco.
Depois de uma breve passagem por Nova York, Brizola seguiu para Portugal, onde permaneceu até 1979. Com a aprovação da Lei da Anistia, retornou ao Brasil em setembro daquele ano e retomou a atividade política. A esquerda trata a ida de Brizola aos Estados Unidos como um momento de inflexão: ele teria se reconciliado com Washington, reconhecido erros do passado e passado a se definir como social-democrata e ocidentalista.
A ajuda americana, portanto, não foi um detalhe lateral de sua biografia, mas parte de uma etapa decisiva de sua trajetória política e de seu retorno à vida pública brasileira.
O resgate americano de Brizola e a indignação seletiva do PT
Quase cinco décadas depois, a relação entre a assistência americana dada a Brizola e Flávio Bolsonaro expôs a indignação seletiva do PT. A possibilidade de envolvimento americano na viagem do senador do PL provocou reação de integrantes do PT. O líder do partido na Câmara, Pedro Uczai (SC), e o deputado Rogério Correia (MG) pediram à Polícia Federal que investigasse uma possível rede de apoio internacional à saída do senador. Os parlamentares também defenderam que o Itamaraty cobrasse explicações dos governos envolvidos.
Lula também criticou publicamente a viagem. Em 27 de outubro, afirmou que Flávio havia fugido do país e questionou sua decisão de deixar o Brasil depois da derrota eleitoral. “Quem não deve, não teme”, declarou o presidente. O petista comparou a atitude do senador à sua própria decisão de permanecer no país após derrotas eleitorais e durante as investigações da Operação Lava Jato.
Em outra manifestação, Lula afirmou que a primeira pátria da família Bolsonaro seria a devoção aos Estados Unidos. A Executiva Nacional do PT também aprovou uma resolução que rejeitou a interferência estrangeira na democracia brasileira e mencionou as notícias sobre a participação de Trump e de seus auxiliares na saída de Flávio.
Já sobre Brizola, não faltam elogios do presidente. Em 2023, quando o líder gaúcho completaria 101 anos de idade, o petista chamou o colega de ideologia de “uma das figuras políticas mais brilhantes da história do país, que tanto contribuiu para a nossa democracia”. Em 2026, no palanque da neta de Brizola em Porto Alegre, Lula novamente ressaltou sua admiração: “poucas vezes esse país produziu um líder político da qualidade, de caráter, como o nosso companheiro”.
A contradição que chama a atenção no discurso do PT está na maneira como a ajuda estrangeira é interpretada conforme o personagem beneficiado. Quando Brizola recebeu apoio da diplomacia americana e da CIA para chegar a Nova York, o episódio foi incorporado como um cânone de sua história de resistência à ditadura.
Mas quando Flávio Bolsonaro recebeu autorização do governo Trump para entrar nos Estados Unidos com auxílio de pessoas ligadas à Casa Branca para organizar o traslado, setores da esquerda passaram a tratar a assistência como motivo de indignação política.
VEJA TAMBÉM:
-

Flávio Bolsonaro faz primeira aparição pública nos EUA ao lado de Eduardo
-

Rubio nega participação dos EUA na saída de Flávio e evita atrito com o Brasil

















Leave a Reply