A visita do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil, neste fim de semana, será mais um passo da estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de associar sua candidatura presidencial a lideranças conservadoras internacionais. Convidado para discursar na convenção nacional do PL, em São Paulo, o argentino se soma à agenda externa construída pelo pré-candidato após a aproximação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem esteve na Casa Branca em maio.
Além da participação na convenção, Milei cumprirá uma agenda política na capital paulista voltada ao fortalecimento dos laços com as principais lideranças do campo da direita brasileira. O presidente argentino também se reunirá com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante passagem dele por terras nacionais que ocorre sem previsão de encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A presença de Milei não se resume a um gesto protocolar. Ao convidá-lo para discursar no evento que marcará o início oficial da campanha de Flávio, o PL pretende explorar o prestígio do presidente argentino junto ao eleitorado conservador e reforçar o alinhamento da direita brasileira com governos e lideranças de perfil semelhante na América Latina.
A aproximação entre Flávio e Milei ganhou força no fim de junho, quando o senador esteve em Buenos Aires para uma reunião na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência argentina. Na ocasião, o pré-candidato do PL disse que a conversa abordou o avanço da direita na América Latina e as reformas econômicas implementadas pelo governo argentino.
“A Argentina era o nosso fantasma, o exemplo do que não fazer. Então, chegou Javier e cortou na própria carne do Estado com uma motosserra, reduziu os ministérios pela metade, acabou com os privilégios, equilibrou as contas públicas […] Enquanto Milei colocava ordem na sua casa, Lula desordenava a nossa”, disse Flávio na ocasião.
Ao publicar uma foto após o encontro, o argentino afirmou que “vem aí a onda azul pelas mãos de Flávio Bolsonaro”. Agora, a visita do presidente argentino também dá continuidade à estratégia internacional adotada por Flávio nos últimos meses.
Em maio, o senador foi recebido por Donald Trump na Casa Branca, onde tratou de temas como segurança pública e cooperação bilateral. No dia seguinte ao encontro, os Estados Unidos anunciaram a classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida foi defendida por Flávio durante a reunião e explorada por aliados como demonstração de sua capacidade de articulação internacional.
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Milei fortalece discurso da direita conservadora no Brasil
Para aliados de Flávio, a presença de Milei na convenção do PL tem peso simbólico, pois o argentino é visto como uma das principais referências do campo conservador na América Latina. Além disso, integrantes do PL avaliam que o encontro fortalece o apoio de lideranças estrangeiras ao nome do senador às vésperas do início oficial da campanha no Brasil.
Para o cientista político Elias Tavares, a influência de Milei sobre a direita brasileira é mais simbólica do que programática. Segundo ele, o presidente argentino tornou-se uma referência por representar a figura de um líder antissistema, cuja comunicação política dialoga diretamente com parte do eleitorado de Flávio.
“Milei exerce principalmente uma influência simbólica e discursiva. Ele oferece à direita brasileira a narrativa do líder que confronta a classe política tradicional, denuncia a chamada ‘casta’, adota uma comunicação agressiva e promete realizar mudanças profundas”, afirma.
Na avaliação do especialista, a identificação da base conservadora com Milei está mais ligada ao personagem político do que às medidas adotadas por seu governo. “Milei influencia mais a linguagem, a estética e o comportamento político do que a formulação concreta de políticas públicas no Brasil. Sua figura dialoga fortemente com o bolsonarismo, mas não necessariamente representa toda a centro-direita brasileira”, diz.
Tavares avalia que a presença de Milei na convenção do PL tende a fortalecer essa conexão junto ao eleitorado mais fiel do ex-presidente Jair Bolsonaro, ainda que seus efeitos sobre segmentos moderados sejam mais limitados. “Há algum ganho eleitoral concreto, especialmente na mobilização e no entusiasmo da base mais ideologizada. No entanto, não acredito que uma fotografia com Milei, isoladamente, tenha força para ampliar significativamente a candidatura entre eleitores moderados”.
A passagem de Milei pelo Brasil, no entanto, não incluirá uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar em Brasília. O presidente argentino havia manifestado a intenção de encontrá-lo durante sua viagem ao país, mas o plano foi inviabilizado após decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que manteve as restrições às visitas sociais autorizadas ao ex-presidente.
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Além de Milei, campanha de Flávio mantém aposta em apoio de Trump
A aproximação com Javier Milei não é um movimento isolado da campanha de Flávio Bolsonaro. Nos últimos meses, o senador intensificou a interlocução com Trump.
Um dia após o anúncio do governo norte-americano de classificar as duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, a medida passou a ser explorada por aliados do parlamentar como demonstração da capacidade de articulação internacional do pré-candidato. Para o cientista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), segurança pública, soberania nacional e relações com os Estados Unidos tendem a ocupar espaço cada vez maior na disputa presidencial deste ano.
“A relação entre Lula, Flávio Bolsonaro e Trump será observada permanentemente”, avalia. Segundo Prando, episódios recentes demonstram como acontecimentos internacionais passaram a influenciar diretamente o debate político brasileiro.
“Rememore-se, por exemplo, que, em meados de 2025, o tarifaço de Trump e o ataque à soberania brasileira ajudaram a melhorar a aprovação de Lula”, aponta ele. A aproximação com Flávio também se insere em uma estratégia mais ampla de Donald Trump de demonstrar apoio público a aliados conservadores na América Latina.
Nos últimos anos, o presidente norte-americano manifestou apoio a lideranças como Milei; Daniel Noboa, no Equador; e Nasry Asfura, em Honduras, buscando fortalecer candidaturas e governos alinhados à sua agenda política. Na Argentina, por exemplo, Trump chegou a afirmar que ofereceu “muita ajuda” a Milei durante a campanha e voltou a elogiá-lo após o resultado das eleições legislativas, reforçando a aproximação entre os dois governos.
A cúpula do PL aposta que a associação de Flávio com Trump representa um ativo eleitoral. Para o presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, o apoio formal do presidente dos EUA fortaleceria a candidatura do senador e poderia ampliar a aproximação entre Brasil e Estados Unidos.
“[O apoio] ajuda muito, porque os Estados Unidos são o país mais rico do mundo. Eles têm 3% da população do mundo e 20% do montante de dinheiro do mundo. O que o Flávio quer é que eles venham produzir no Brasil para gerar empregos aqui. É isso que nós temos que fazer com quem tem dinheiro. E quem tem dinheiro é o Trump”, afirmou Valdemar ao SBT News.
Questionado se o endosso do presidente norte-americano poderia gerar desgaste eleitoral, o dirigente respondeu de forma categórica: “Na minha opinião, ajuda.” Apesar disso, pesquisa PoderData/Aya divulgada em julho indica que o apoio trumpista pode não produzir o efeito esperado sobre o eleitorado brasileiro.
Segundo o levantamento, 42% dos entrevistados afirmaram que um eventual endosso do presidente dos Estados Unidos a um candidato ao Palácio do Planalto teria impacto negativo na campanha do escolhido. Outros 32% avaliaram que o apoio seria positivo, enquanto 20% disseram que não faria diferença.
A pesquisa ouviu 2.400 eleitores em todo o país entre os dias 12 e 15 de julho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-00059/2026.















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