Em 21 de novembro de 1869, no parque da Academia de Agricultura de Moscou, cinco homens mataram um estudante chamado Ivánov e afundaram o corpo num lago. Todos eram da mesma célula revolucionária, dirigida por Serguei Necháiev. Ivánov também. A acusação contra ele, de ter delatado o grupo, era falsa. Necháiev precisava de um ato que amarrasse os conspiradores uns aos outros. Escolheu o único crime capaz disso. Dostoiévski leu o caso nos jornais e escreveu Os demônios.

Uma das coisas que ele viu no caso, desdobrada depois por 700 páginas de romance, está na escolha do alvo. Ivánov morreu por conveniência: era o de dentro, estava ao alcance da mão, já se desconfiava dele. Ninguém na célula duvidava de que ele era um dos seus.

Convém dizer o que é o livro. A ação se passa numa cidade de província russa. No centro dela está Piotr Verkhoviénski, um rapaz que organiza cinco conhecidos numa célula revolucionária e lhes garante que fazem parte de uma rede nacional, com comitê central e ligações no estrangeiro. A rede não existe. Piotr a inventou para dar àqueles cinco a sensação de pertencer a alguma coisa maior que a cidade onde moram. Quando um antigo companheiro chamado Chátov rompe com o grupo, por ter voltado a crer em Deus, Piotr convence os outros de que ele vai denunciá-los à polícia. O quinteto o mata. O corpo vai para um lago, como o de Ivánov.

O que vem depois importa tanto quanto o próprio crime. Ele amarra os cinco por algumas semanas e então estoura: um deles enlouquece, o grupo se desfaz, Piotr foge do país. Ele nunca acreditou em nada. Usava a convicção alheia como ferramenta, o que faz dele o personagem mais moderno do livro.