Quando ocorre um incêndio, mesmo os ambientes mais calmos e organizados são tomados de súbita confusão e gritaria. É no efeito desse caos fabricado que Alexandre de Moraes parece apostar agora para se livrar das graves acusações contra ele. E que teriam envolvido negociar e revisar o contrato milionário da esposa com banqueiro corrupto, em troca de uma espécie de serviço de “consultor da bandidagem”, como definiu um ex-ministro do STF.

Ao incendiar o país, acusando os outros de irregularidades que ele vem cometendo a torto e a direito nos últimos sete anos, o ministro tenta criar um pandemônio. Uma maneira de confundir a tudo e a todos, abrindo uma brecha por onde possa fugir impunemente e se abrigar das labaredas.

Impossível não relacionar essa tática de Moraes às de um personagem do início da era cristã. Dizem relatos históricos que o imperador Nero pôs fogo em Roma para se consolidar no poder e obter uma justificativa para perseguir os cristãos, que cresciam rapidamente em número e se recusavam a prestar culto ao deus-imperador.

Agiu como verdugo da Constituição, fez pose de herói da democracia

No caso brasileiro, “data máxima vênia” por compará-lo à tragédia cristã de dois mil anos atrás, Moraes teve seu momento de deus-imperador: houve muitos que até o louvaram como herói salvador da democracia. Esse “herói” encarcerou milhares de pessoas que saíram às ruas para pedir a queda do imperador, ou melhor, o impeachment do próprio ministro e o “Fora Lula”. Moraes exerceu à vontade os superpoderes concedidos por seus pares, poderes totalmente alheios à Constituição, e jogou no calabouço inclusive o líder maior dos opositores.