Há algo de profundamente equivocado no modelo atual do agronegócio brasileiro. Nunca produzimos tanto. Nunca vendemos tanto. E, ainda assim, nunca estivemos tão vulneráveis. O agro brasileiro ostenta números impressionantes: somos um dos maiores exportadores de alimentos do planeta, detentores de amplas terras agricultáveis e herdeiros de uma biodiversidade sem paralelo. Mas esses ativos, por si só, não se traduzem em poder. Competitividade sem autonomia é fragilidade disfarçada de força. E é exatamente nessa contradição que o Brasil vive hoje.

Vejamos os fatos com a frieza que a geopolítica exige. Nossa produção de grãos commodities, especialmente a soja, gera lucros extraordinários para grandes corporações transnacionais, mas deixa os produtores nacionais cada vez mais endividados. Dependemos massivamente da importação de fertilizantes, pesticidas químicos e outros insumos essenciais.

Concentramos nossa agricultura em uma cultura dominante e em um comprador quase único: a China. E, para piorar, Pequim vem anunciando uma mudança estrutural em sua política econômica, trocando o aminoácido produzido em terras agrícolas por aminoácidos produzidos em fábricas, com o objetivo explícito de reduzir significativamente sua demanda por soja na próxima década.

O que está em jogo não é apenas uma queda de preço ou uma renegociação comercial. É a própria sustentabilidade do modelo. A essa realidade econômica soma-se uma transformação geopolítica sem precedentes. Os mecanismos multilaterais de mediação de conflitos e de regulação do comércio estão paralisados. O livre comércio, como o conhecíamos, morreu. As transações internacionais agora carregam cláusulas de alinhamento político, sanções econômicas e exigências de soberania limitada. Não basta mais ser competitivo. É preciso ser autônomo.