Nunca se viu eleição como essa na história do país: a menos de 20 dias para a realização do primeiro turno no pleito que define presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, os candidatos estão “fora dos holofotes” e a atenção dos eleitores voltada para a crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF).
Nesse cenário, a discussão de propostas para os problemas concretos da população, que geralmente já não é lá essas coisas, fica ainda mais prejudicada. Os principais candidatos, ao invés de debaterem entre si soluções para os principais problemas do país, passam a maior parte do tempo trocando acusações sobre quem ou qual grupo político estaria mais envolvido no escândalo do Banco Master e teria mais proximidade com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, em desdobramentos do caso no STF.
Por falar em propostas, o debate eleitoral promovido pela Band TV, que abriu a série de encontros com candidatos a presidente nas eleições 2026, ficou esvaziado sem as presenças de Flávio Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Romeu Zema (Novo). Já o debate com presidenciáveis previsto para a noite da última segunda-feira (14) foi cancelado após nem Flávio nem Lula confirmarem presença dentro do prazo estabelecido.
Até 4 de outubro, data marcada para a votação do primeiro turno, estão agendados mais dois debates na televisão. A participação de Lula e de Flávio, porém, ainda é uma incógnita.
Caso mantenham as justificativas para a ausência no primeiro debate, é provável que não estejam nos demais encontros. Isso porque a campanha de Lula reclamou que Renan Santos (Missão) e Zema foram convidados — pela lei eleitoral, as emissoras não são obrigadas a convidar candidatos de partidos com menos de cinco representantes no Congresso Nacional. Por sua vez, Flávio confirmou que não vai participar de debates sem a presença de Lula.
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Crise no STF muda critérios de voto para o eleitor?
Enquanto isso, na avaliação do cientista político Samuel Oliveira, a crise do STF não está apenas roubando espaço da eleição, e sim está mudando o critério pelo qual parte do eleitorado vai decidir o voto. “A 20 dias do primeiro turno, quando as campanhas normalmente tentariam fechar votos falando de economia, segurança, emprego e entregas de governo, o debate foi deslocado para confiança nas instituições, abuso de poder, corrupção, imparcialidade e limites entre os Poderes”, afirma.
“O centro da eleição fica menor e a polarização fica maior. O próprio STF já demonstra preocupação de que as sessões virem ‘cortes’ de campanha nas redes. Portanto, não podemos dizer que a crise já virou a eleição. O efeito mais provável nesta fase é outro: ela endurece quem já tinha lado, aumenta rejeições e muda o ambiente no qual o eleitor indeciso fará sua escolha final, inclusive não escolhendo, o que pode refletir em aumento de brancos, nulos e abstenção”, pontua Oliveira.
O cientista político chama atenção para um efeito menos óbvio e talvez mais importante ainda que na eleição presidencial: o Senado. “Em 2026 serão eleitos 54 senadores, dois terços da Casa. Então, quando o Supremo vira assunto dominante da campanha, o eleitor não está apenas escolhendo entre Lula e Flávio”, diz o cientista político.
“O eleitor pode começar a olhar para o candidato ao Senado perguntando o que ele fará com o STF?. Se essa dinâmica crescer, a maior consequência eleitoral da crise pode aparecer não apenas no Planalto, mas na composição do Senado que vai conviver com o próximo presidente e com o próprio Supremo a partir de 2027.”
E os reflexos aparecem nas campanhas presidenciais. “Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta convencer o eleitor de que o desgaste do Supremo também é desgaste de Lula. O problema para Flávio é que a crise também bate à sua porta, pois ele aparece formalmente investigado no caso ‘Dark Horse’ e por suas eventuais relações com Daniel Vorcaro”, diz Oliveira.
Isso não significa, no entanto, que o assunto seja confortável para o atual presidente. “Lula está na posição inversa: quanto mais tempo a eleição falar de STF, Moraes e Master, menos se fala de emprego, renda, programas sociais e resultados de seu governo, terreno no qual prefere disputar a reeleição”, afirma o cientista político.
“A oposição tenta transformar a eleição num voto de indignação e mudança, Lula tenta transformá-la num julgamento sobre como está a vida das pessoas. Até agora, os números dizem que a crise não mudou o voto, mas numa eleição tão apertada, os poucos indecisos que ela conseguir mover podem fazer diferença”, ressalta Oliveira.
Por outro lado, apesar de ocupar a maior parte do espaço no noticiário da imprensa política, que a essa altura estaria focado majoritariamente na eleição, e com consequente atenção do eleitor, a influência da crise no STF sobre a escolha dos candidatos por parte dos eleitores pode ser relativa. Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 12 mediu o impacto da crise no STF na eleição do próximo presidente do Brasil.
Segundo o levantamento, 85% disseram que não mudaram de voto após ficarem sabendo da troca de mensagens entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. Outros 7% não mudaram, mas ficaram em dúvida. Os que mudaram o voto e os que não sabem chegaram a 4% cada.
Em outra questão abordada pelo Datafolha, 71% afirmam concordar que o STF é essencial para proteger a democracia no Brasil. Outros 21% discordam e 3% não concordam nem discordam. Por fim, 5% não souberam responder.
A pesquisa foi encomendada pelo jornal Folha de S.Paulo e pela Globo. O Datafolha ouviu 2.002 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 8 e 10 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro no TSE é BR-01833/2026.

















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