
Gestor de fundos e fundador da Esh Capital, Vladimir Timerman construiu sua carreira não apenas tentando encontrar boas oportunidades de investimento, mas também comprando brigas com controladores de empresas abertas, questionando decisões de administrações e denunciando o que considerava irregularidades a órgãos de fiscalização.
O estilo ajudou a transformá-lo em uma espécie de personagem à parte na Faria Lima, onde tornou-se conhecido por seu comportamento pouco convencional de “investidor ativista”.
Foi nesse contexto que entrou na história do Banco Master, que acabou com as operações encerradas pelo Banco Central (BC) e teve seu controlador, Daniel Vorcaro, preso em novembro de 2025.
Anos antes de a instituição ser liquidada, Timerman já havia levado às autoridades questionamentos sobre operações relacionadas ao banco. Documentos apresentados ao Senado registram duas denúncias formais da Esh Capital ao Banco Central ainda em 2023.
A primeira, protocolada em março daquele ano, questionava o suposto controle indireto do banco por meio de estruturas que passariam por uma empresa nas Bahamas, um fundo e uma companhia chamada Banvox. A segunda tratava da exposição de fundos a precatórios e de problemas que Timerman apontava na precificação desses ativos.
O gestor afirma que já alertava para riscos da atuação do Master ainda antes. Em depoimento à CPI do Crime Organizado, em março deste ano, disse ter encaminhado a primeira denúncia sobre irregularidades relacionadas ao banco de Vorcaro em 2019. Segundo ele, a preocupação surgiu a partir de seus investimentos e da análise das estruturas do banco.
Ex-jogador de rúgbi, Vladimir Timerman é o filho mais velho de três irmãos. Seu pai, Artur, foi médico infectologista e especialista em HIV. A família também inclui a escritora e psiquiatra Natalia Timerman.
O nome Vladimir também carrega uma história familiar: o nome seria uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelo regime militar.
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De engenheiro a “defensor de acionistas minoritários”
Nascido no final da década de 70, Timerman é engenheiro eletricista formado pela Universidade de São Paulo (USP). Ao longo da carreira, acumulou certificações como gestor de investimentos e de ativos de risco e passou por instituições como Itaú BBA, Hedging-Griffo e Nest Investimentos. Em 2015, fundou a Esh Capital.
A empresa nasceu com uma estratégia diferente de uma gestora tradicional: se especializou, entre outras coisas, em situações especiais — investimentos nos quais problemas societários, distorções de preços ou mudanças na estrutura de uma empresa poderiam abrir oportunidades.
Em 2021, por exemplo, um dos fundos da Esh ganhou destaque depois de registrar retorno superior a 100%. Uma parcela relevante da carteira era dedicada justamente a “special situations”, estratégia na qual a gestora procurava oportunidades em situações consideradas anormais ou complexas.
O método levou Vladimir Timerman ao chamado ativismo societário. Ele comprou participações em companhias e passou a pressionar administrações e controladores.
“Você pode ser passageiro numa história e ficar mercê de quem tá dirigindo o carro, ou você pode sentar no banco do motorista”, comparou, em entrevista recente à Folha de S.Paulo.
Entre os casos estão disputas envolvendo Gol e Smiles, Panvel, Terra Santa, Alliar e Gafisa. Em entrevista publicada pela própria Esh, o gestor é apresentado como alguém que se autodenomina defensor dos acionistas minoritários.
“Sou o mais comunista entre os capitalistas”, disse Timerman em entrevista ao Estado de S.Paulo, em 2024. “E hoje o que eu faço é tentar conseguir os mesmos direitos para todos os acionistas de uma empresa.”
A estratégia pode funcionar quando o investidor consegue identificar uma diferença entre o que a administração de uma companhia está fazendo e aquilo que ele considera ser o interesse dos acionistas. Para Timerman, gerou uma série de conflitos com acionistas majoritários.
A Terra Santa, por exemplo, apresentou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) uma manifestação acusando a Esh e Timerman de conduta abusiva e de má-fé, além de classificar suas acusações como especulativas e infundadas.
O perfil pouco convencional do gestor não se limitava ao comportamento em assembleias de acionistas ou aos documentos enviados aos reguladores. Vladimir Timerman passou a utilizar as redes sociais para atacar publicamente empresários e executivos contra os quais fazia denúncias.
“Eu denunciei a maior organização da história do país. Minha agressividade é não abaixar a cabeça, é não ter medo desses caras. E eu vou continuar denunciando, vou continuar cobrando que os órgãos de controle façam o trabalho deles”, afirmou em entrevista recente ao portal Metrópoles.
Segundo levantamento publicado pelo UOL, o gestor passou os últimos anos encaminhando denúncias à CVM, ao BC, à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público (MP). A atuação lhe rendeu uma série de processos judiciais e contribuiu para criar uma imagem controversa no mercado.
Em abril, disse à Folha “estar quebrado”, atribuindo a situação financeira ao bloqueio judicial de fundos da Esh Capital.
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As denúncias contra o Master
Desde que o caso Master estourou, o fundador da Esh tem andado acompanhado de segurança particular. No mês passado, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) proteção por meio do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas.
Documentos da investigação da PF tornados públicos recentemente registraram conversas nas quais Vorcaro e pessoas próximas discutiam medidas contra o gestor. O material inclui uma conversa em que o ex-dono do Master teria pedido que fosse dada “carga total” contra Vladimir Timerman.
No depoimento à CPI do Crime Organizado, ele afirmou que insistiu diversas vezes para que as autoridades investigassem os fatos que denunciou contra o Banco Master. Disse também que uma manifestação do BC teria sido encaminhada à PF somente depois de sua insistência.
Ele foi chamado a depor, ao lado do ex-diretor de fiscalização do BC Paulo Sérgio Neves. O objetivo da oitiva era colher informações sobre o Master e sobre possíveis relações entre o sistema financeiro e organizações criminosas.
No depoimento, sustentou que o empresário e investidor Nelson Tanure estaria entre os verdadeiros controladores do Master.
Tanure, já envolvido em outras disputas com Timerman, também ficou conhecido por investir em empresas com ativos depreciados para realizar mudanças e, deste modo, valorizar suas ações obtendo lucro.
A defesa de Tanure nega que ele tivesse qualquer relação de natureza societária com o banco de Vorcaro e afirma que ele foi cliente do banco, nas mesmas condições em que é atendido por outras instituições financeiras do mercado.
Em 2023, Tanure acionou Timerman na Justiça alegando perseguição nas redes sociais. O processo resultou em uma condenação do gestor, que recorre da decisão.
A Gazeta do Povo tentou contato com Vladimir Timerman por meio da assessoria de imprensa da Esh Capital, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
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