
Vai-se o homem e fica a história! Lembrar de Elias Abrahão é sempre um privilégio. Lembrar dele ainda nos dá forças, conforta.
Ele costumava dizer: “Creio na esperança e, por isso, antevejo dias melhores para toda humanidade e maior fraternidade entre todos os seres humanos! Sou dos que creem e, por isso mesmo, tenho que decidir hoje fazer meu amanhã diferente, mais próximo dos meus sonhos. Porque creio no amanhã, não me deixo abater pelos reveses que porventura eu hoje venha sofrer. Porque eu creio no amanhã, caminho com determinação, sabendo que os momentos mais escuros da noite são exatamente aqueles que precedem a alvorada”.
Elias faleceu em 18 de setembro de 1996. Para nós, amigos e irmãos de jornada e de princípios, foi um baque. Um ano depois, durante o evento em homenagem ao seu falecimento, o educador, escritor e pastor presbiteriano Rubem Azevedo Alves, amigo de longa data de Elias, nos brindou, durante a sua fala, com uma frase inesquecível: “Elias vinha em nossa direção – aquela enorme pessoa – e nos cativava com o sorriso que abraçava a gente”.
Para quem teve o privilégio de conviver e estar com ele, com a sua esposa Magali e os seus três filhos, Luciana, Paula e Ricardo, nada melhor do que essa frase para caracterizá-lo como pessoa. O sorriso que abraça é o sorriso da ternura e da paz explícitas nas palavras, nos gestos e nos olhares.
Escrevemos este texto inspirados pelos momentos que estivemos juntos, seja na relação direta ou mesmo como participantes ou observadores dos eventos planejados ou daqueles que nos surpreenderam e, também, pelas conversas e reflexões após seu falecimento.
Não estamos focando nos 30 anos do seu falecimento, pois parece-nos que esse tempo é ontem, considerando a densidade e a dimensão da convivência, do aprendizado mútuo, das conversas provocadoras, reflexivas, alegres e cheias de espiritualidade e amor.
Elias delegava, nos dava autonomia e esperava de nós responsabilidade e honestidade. A delegação e a autonomia nos conduziam, pelas suas orientações e exemplos, a fazer o mesmo com as pessoas que compunham as equipes
Todos nós temos nossas perfeições e imperfeições. Não precisamos citar ninguém sobre isso. A vida é uma escola aberta, surpreendente, desafiadora e que provoca a nossa capacidade de aprender ou não com os acontecimentos.
Queremos lhes falar, com a permissão de vocês, sobre a pessoa que nos convidou, em 1991, para compor a sua equipe na Secretaria de Estado da Educação do Paraná, com a missão de trabalharmos juntos, cada um segundo suas competências e seu talento, mas, de forma solidária, para cumprir o plano de governo de 1991 a 1994, em duas páginas. Simples!
Não vamos listar o diagnóstico e as ações ali registradas. Mas somos obrigados a registrar, no mínimo, uma delas: trabalhar para promover a educação de qualidade em todas as escolas públicas do Paraná.
Nosso propósito aqui é o de relembrar algumas declarações, ações e, também, respostas dele para jornalistas. E, também, registrar uma de suas características como gestor: Elias delegava, nos dava autonomia e esperava de nós responsabilidade e honestidade. A delegação e a autonomia nos conduziam, pelas suas orientações e exemplos, a fazer o mesmo com as pessoas que compunham as equipes.
A autonomia é um exercício desafiador de gestão que nos obriga a refletir sobre atribuições e responsabilidades; humildade e prepotência; e saber e poder. Aprendemos com ele o significado de democratizar as informações.
Elias sabia utilizar as oportunidades para manifestar a sua crença e o seu respeito à escola pública e aos professores. Ele insistia na ideia de que a escola “… mais do que nunca, deve ser definida como lugar de aprender a aprender, e não apenas repasse e assimilação de informações”; para ele, “A educação deve levar a pessoa a ser forte e feliz, independente da profissão que exerce”. Essas frases são coerentes com seus movimentos e decisões como secretário de Estado da Educação do Paraná, entre 1991 e 1994, e estão registradas no discurso proferido na Câmara dos Deputados em novembro de 1995 (O primado da esperança / Elias Abrahão. Curitiba, PR: AgendArte Livros Editora, 2016).
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Elias Abrahão era capaz de mudar o sentido da arguição de um jornalista que esperava uma resposta com justificativa e se surpreendia com uma resposta promissora. Vamos contar: em fevereiro de 1992, a imprensa se esbanjava noticiando a peregrinação dos pais que atravessavam a noite nas calçadas que contornam algumas escolas públicas estaduais, movidos pelo desejo de matricular seus filhos nessas escolas.
Ao chegar na sede da SEED/PR, pela manhã, observou que havia, aproximadamente, 30 pessoas – eram pais se manifestando sobre a aparente falta de vagas em escolas públicas estaduais e municipais de Curitiba.
Após conversar com os pais, foi interpelado por dois jornalistas de duas empresas de televisão que lhe perguntaram sobre as filas que ocorriam em várias escolas públicas do Paraná. Elias respondeu que lamentava saber que os pais estavam atravessando a noite e se sacrificando para matricular seus filhos nessas escolas e, na sequência, acrescentou: “Lamento e compreendo o sacrifício dos pais, mas a fila pode ser interpretada, também, que os pais desejam matricular seus filhos em uma boa escola”. A entrevista acabou!
Uma semana depois, num esforço conjunto com a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba, verificamos que havia a demanda de 1.435 matrículas para mais de 4.300 vagas.
Na segunda quinzena de março do mesmo ano de 1992, mediante sua orientação, um grupo de pessoas começou a desenhar e estruturar a primeira versão do Sistema Estadual de Registro Escolar e, num esforço com os Núcleos Regionais de Educação e as Escolas Públicas Estaduais, iniciamos o processo inteligente da “Chamada Escolar”, que era feita e registrada em papel e ensejava contínuas reclamações.
Nos arriscamos a dizer que seria impagável presenciar ou assistir a uma conversa entre Elias e o filósofo francês Edgar Morin, recentemente falecido.
Abdala Radi Maftum e Rosi Salomão, ambos educadores e membros da equipe de Elias Abrahão na SEED/PR entre 1991 e 1994.
















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