Na edição comentada do longa-metragem ‘A Múmia’ (1999), o diretor Stephen Sommers diz: “A maior parte desse filme é baseada em mitos e lendas reais. Mesmo sendo uma história sobre um cadáver de 3 mil anos que anda e fala, queríamos que fosse o mais real e factual possível.”
A obra de Sommers é uma das várias mídias, entre livros, séries e filmes, baseada na exploração de artefatos e fósseis egípcios que ganhou popularidade no século XX. ‘A Múmia’ de 1932, dirigido por Karl Freund, estrela um sacerdote mumificado que voltou à vida após uma expedição arqueológica; em 1959, a história ganhou um reboot dirigido por Terence Fisher.
Em 2027, chegará aos cinemas um novo capítulo da história baseado no filme com Brendan Fraser, retomando a franquia de sucesso.
Mas um evento específico foi responsável por transferir o foco de uma mera curiosidade sobre civilizações antigas para um medo intenso da suposta “maldição” ligada a elas: a escavação da tumba de Tutancâmon.
Uma descoberta amaldiçoada?
Roteirista do primeiro ‘A Múmia’, John L. Balderston teria estado presente na abertura da tumba do faraó Tutancâmon em 1923 como correspondente internacional de um jornal americano no Egito.
O governante foi coroado com apenas nove anos de idade e morreu aos 19. Seu mandato, embora curto, foi significativo: ele mudou o próprio nome, extinguiu a religião estabelecida por seu pai e retomou a crença tradicional egípcia. Sem deixar herdeiros, sua morte interrompeu a linhagem faraônica e deu o poder ao seu comandante militar, Ay.
O túmulo foi descoberto por Howard Carter um ano antes em uma expedição no Vale dos Reis, financiada pelo aristocrata britânico George Herbert, lorde de Carnarvon. A antecâmara, separada da tumba por uma porta selada, estava repleta de tesouros em metais e pedras preciosas; meses foram necessários para catalogar todos os objetos.
Em 16 de fevereiro de 1923, arqueólogos de renome e membros da imprensa autorizada puderam conferir in loco a abertura da câmara trancada onde Tutancâmon foi sepultado. Tratava-se da tumba mais bem conservada encontrada até então: trazia o corpo mumificado do faraó dentro de um caixão em ouro maciço; uma máscara mortuária também de ouro, cravejada com pedras preciosas; colares, anéis, amuletos e guirlandas de flores entre camadas de linho em torno da múmia, e suas adagas favoritas.
Um dos objetos daria origem à suposta “maldição de Tutancâmon“: uma mensagem inscrita na entrada da tumba ou dentro do sarcófago, de acordo com diferentes versões da história. Ela dizia, em hieróglifos: “A morte tocará com suas asas aquele que perturbar o sono do faraó.”
Nasce uma lenda
Nos meses que seguiram, jornais lutaram para encontrar formas de cobrir aquela que se tornaria uma das maiores conquistas da arqueologia. A história havia sido vendida por George Carnarvon com exclusividade para o britânico The Times; ao restante da imprensa sobrou, então, ir atrás de histórias em torno do fato principal, ouvindo fontes indiretas.
Quando pessoas presentes ou ligadas à exploração da tumba começaram a falecer, esta se tornou a alternativa mais viável para capturar a atenção do público.

Ainda no final de fevereiro, o lorde e Howard Carter tiveram um desentendimento que resultou na paralisação da expedição. Em seguida, o aristocrata foi picado por um mosquito e contraiu uma doença sanguínea enquanto hospedado em Luxor, perto do rio Nilo. Ele morreu no início de abril.
Outras mortes foram noticiadas nos anos seguintes: o radiologista que ajudou a examinar o túmulo, Archibald Douglas Reid, faleceu por doença desconhecida em 1924; outro membro da expedição, A.C. Mace, morreu envenenado por arsênico em 1928.
O secretário de Carter, Richard Bethell, morreu em 1929, com suspeita de assassinato. E, finalmente, o próprio arqueólogo faleceria em 1939 de linfoma de Hodgkin, que teria sido diagnosticado anos antes, depois da abertura do sarcófago.
As fatalidades fomentaram o misticismo em torno da descoberta, atribuídas a uma suposta “maldição” relacionada à mensagem encontrada no local.
Em 2002, um estudo no British Medical Journal descobriu que a expectativa de vida da população ocidental residente no Egito entre 1920 e 1930 era de apenas 44 anos – compatível e até menor do que a idade média que tinham os membros da escavação quando morreram. Fungos e bactérias presentes nos locais explorados, além de doenças comuns na região, são algumas das causas especuladas para a aparente onda de mortes.

















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