
Há uma porção de pseudomatemáticos no X apresentando “modelos” de resultados eleitorais que apontam para o que seria a suposta inconsistência do resultado da eleição presidencial. É a velha teoria conspiratória da fraude das urnas rediviva, com um verniz de aritmética subginasiana. A partir daqui, o eleitor conservador, legitimamente decepcionado com mais uma vitória de Lula, é convidado a fazer uma escolha difícil: reconhecer o resultado adverso (e toda a autocrítica associada a isso) ou embarcar novamente no círculo vicioso de autoengano que pode levar a novas derrotas políticas no futuro.
Compreender a realidade negativa exige algum grau de humildade. Mas, ao fazê-lo, a direita pode iniciar o percurso do que pode ser uma emancipação ideológica saudável. Talvez até de uma alforria. E, antes de qualquer coisa, importa constatar que a família Bolsonaro foi responsável por duas das maiores derrotas da história política brasileira. O pai perdeu, pela primeira vez, uma reeleição. Já o filho Flávio Bolsonaro sofreu, também de forma inédita, uma virada no 2º turno para Lula. Teria esse grupo condições de continuar na liderança do antipetismo até 2030?
O petista fez um rápido diagnóstico das falhas de sua campanha no 1º turno, ao mesmo tempo em que Flávio agia como se já estivesse eleito. E não ajudou o fato de ele se apresentar nos debates eleitorais como um cosplay de Pablo Marçal
Em nota após a eleição, o PL, partido de Flávio e Jair, reconheceu o resultado das urnas, enfatizou suas vitórias para governos estaduais e nas disputas legislativas e marcou posição sobre o uso da máquina pelo governo Lula. Uma postura muito mais sóbria do que a do seu candidato derrotado. Valdemar da Costa Neto, que pode ser muitas coisas, menos burro, já soube ler o cenário. A direita, no geral, saiu fortalecida das urnas. A derrota no 2º turno da eleição é responsabilidade da família.
Em vez de embarcar no velho conspiracionismo da fraude (que serve a influenciadores e aos coletores de engajamento), os direitistas deveriam aproveitar o ensejo para buscar alternativas. Uma situação inusitada, visto que tal janela de oportunidade se deu por força da vitória do lulismo. O petista vai para o último mandato sem ter um sucessor natural, enquanto a oposição vê no horizonte um conjunto de possibilidades que a vitória de Flávio obstaria, já que devolveria à família a autoridade política central sobre o antipetismo.
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- O lulismo na rua e o vale tudo fiscal em busca de votos
Todas as razões para a vitória de Lula são objetivas e facilmente comprováveis. Enquanto ele botava sua tropa na rua, num esforço de mobilização inédito na história recente das eleições brasileiras, o candidato do PL ficou praticamente duas semanas conjecturando nomes para seu governo hipotético. Lula fez um rápido diagnóstico das falhas de sua campanha no 1º turno, ao mesmo tempo em que Flávio agia como se já estivesse eleito. E não ajudou o fato de ele se apresentar nos debates eleitorais como um cosplay de Pablo Marçal.
Em vez de fincar bandeira na desconstrução de um governo cheio de problemas e amplamente rejeitado, Flávio resolveu entrar de cabeça numa disputa insana para ver quem poderia ser mais populista. Assim como o petista, que usou e abusou da máquina, o candidato do PL foi enfileirando anúncios de benefícios e programas custosos. O discurso não convenceu ninguém, mas enfraqueceu a agenda de ajuste fiscal, até então simbolizada no chamado “tesouraço”.
O antipetismo é o fenômeno político mais importante da última década, mas vai sendo sobrepujado por outro fenômeno que se consolidou no processo eleitoral de 2026: o antibolsonarismo. Quanto antes a direita compreender o risco de continuar subordinada a uma família com tamanha barreira de rejeição, mais cedo poderá se reencontrar com sua com sua agenda de país, e talvez, com uma vitória numa eleição presidencial.

















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