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Trump, Xi Jinping e a Armadilha de Tucídides

Na semana passada, os olhos de todo o mundo estavam voltados para Pequim, onde o presidente Trump, acompanhado de uma comitiva que incluiu os executivos das mais importantes empresas norte-americanas da área de tecnologia – de Elon Musk, da Tesla e da SpaceX, a Tim Cook, da Apple, além de muitos outros –, foi se reunir com o presidente Xi Jinping.

A viagem ocorreu em um momento em que as tensões entre os dois países chegaram ao ponto de o próprio presidente Xi Jinping, em suas palavras de abertura da reunião de cúpula, citar a chamada “Armadilha de Tucídides”. A lembrança da dinâmica proposta por Graham Allison, cientista político norte-americano, no famoso livro “A caminho da guerra – os EUA e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?” (Ed. Intrínseca, 2020), é relevante por muitos aspectos.

O grego Tucídides escreveu o clássico “A História da Guerra do Peloponeso” (Ed. WMF Martins Fontes, 2013), sobre o conflito que testemunhou nas últimas décadas do quinto século a.C. Ele narrou a guerra entre a potência hegemônica da época, Esparta, e a potência ascendente, Atenas. Uma frase do livro se tornou famosa e serviu de ideia-força para a tese que Allison iria desenvolver, mais de 24 séculos depois: “A ascensão de Atenas e o temor instilado em Esparta tornaram a guerra inevitável”.

Com essa frase em mente, Allison e sua equipe da Universidade de Harvard se debruçaram sobre dezesseis momentos ao longo da História em que potências emergentes no sistema internacional desafiaram potências dominantes, repetindo a dinâmica que provocou a Guerra do Peloponeso. O resultado da pesquisa apontou que, em doze dessas dezesseis vezes, houve guerra.

Ao tratar especificamente da atual competição entre China e EUA, foco de seu livro, Allison conclui que um conflito militar entre os dois países não é um destino inevitável. Entretanto, para ele, a tese da “Armadilha de Tucídides” comprova que a dinâmica da ascensão da China levará, de fato, a um alto nível de tensão com os EUA que, se não for bem manejado por seus líderes, poderá levar à guerra.

Ao citar a “Armadilha de Tucídides” em seu discurso, Xi Jinping reconhece a existência dessa tensão e, em consequência, posiciona a China como a Atenas moderna, desafiando os EUA, a Esparta dos dias atuais. Mas, na reunião com Trump, ele indicou um caminho para evitar a guerra: não se intrometer na questão taiwanesa, considerada um interesse vital pelos chineses.

A disputa pelo controle das demais cidades da Grécia antiga foi, aliás, o estopim da Guerra do Peloponeso. Escreveu Tucídides: “O ponto final se deu quando a força ateniense atingiu um incontestável pico e os atenienses começaram a invadir os aliados de Esparta. Nesse ponto, Esparta sentiu que sua posição não era mais tolerável e decidiu, iniciando a presente guerra, empenhar todas as energias em atacar e, se possível, destruir o poderio de Atenas”.

Nesse sentido, vale a pena lembrar que não é apenas a China, em relação à questão taiwanesa, que está inquieta com a “invasão dos aliados” pelos oponentes. Essa é também uma preocupação claramente presente nas novas estratégias nacionais de segurança e de defesa dos EUA, que definem o Hemisfério Ocidental – nós, brasileiros, incluídos, obviamente – como prioridade máxima da estratégia americana. Os documentos reafirmam ainda o chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, segundo o qual os EUA não tolerarão que “potências extrarregionais” expandam sua influência nas Américas.

Isso tudo indica que, como Xi Jinping alertou, realmente há assustadoras semelhanças entre as causas da Guerra do Peloponeso e as disputas atuais entre China e EUA.

Felizmente, entretanto, há uma diferença fundamental: nunca uma potência emergente e uma potência dominante tiveram um nível tão elevado de interdependência econômica quanto têm hoje EUA e China

O fato de Trump levar os poderosos executivos de empresas como Tesla, SpaceX, Apple, Boeing, Cargill, BlackRock, Blackstone, Citi, Goldman Sachs, Mastercard, Micron, Qualcomm, Meta e Visa, dentre outras – todas essas empresas possuem enormes interesses econômicos na China –, revela que, mesmo em um cenário de crescentes tensões entre os dois países, chineses e norte-americanos são profundamente interdependentes.

Talvez seja exatamente essa interdependência o principal fator capaz de levar norte-americanos e chineses a superarem a Armadilha de Tucídides, evitando uma guerra que teria efeitos devastadores não só para os dois adversários, mas para todo o sistema internacional.

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