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Viktor Frankl e a liberdade que ainda nos resta

Antes que o mundo mergulhasse em uma de suas noites mais escuras, Viktor Frankl era um jovem psiquiatra em Viena, com uma carreira promissora e um manuscrito que, ele acreditava, poderia transformar a compreensão da mente humana. Então vieram os campos de concentração. Auschwitz. Kaufering. Türkheim.

Lá, despojado de nome, de bens, de identidade – reduzido ao número 119104 –, Frankl fez uma observação que contraria nossa intuição mais imediata: não eram os mais fortes fisicamente que sobreviviam. Tampouco os mais preparados. Sobreviviam, com mais frequência, aqueles que tinham um porquê. Um sentido. Uma razão para continuar existindo, mesmo quando tudo ao redor apontava para o fim.

Essa constatação daria origem à logoterapia e ao clássico Em busca de sentido. Mas o que ela tem a dizer à educação brasileira de hoje? Mais do que parece à primeira vista.

Vivemos um momento em que o debate educacional se concentra em indicadores de desempenho, disputas curriculares, políticas de inclusão e metodologias de ensino. Tudo isso é legítimo e necessário. Mas há uma pergunta que, com assustadora frequência, fica de fora da conversa: para quê? Para que aprender? Para que persistir diante das dificuldades? Para que investir anos da própria vida numa trajetória cujo sentido nunca foi explicado – nem discutido?

Frankl não saiu dos campos de concentração com respostas fáceis. Saiu com uma responsabilidade: testemunhar que, mesmo nas condições mais desumanas, permanece intocável uma dimensão da liberdade humana – a de escolher a própria atitude diante daquilo que não se pode mudar

Frankl nos alertava que o ser humano não é movido apenas por prazer – como sugeria Freud – nem apenas por poder – como propunha Adler. O que move o ser humano, em sua dimensão mais profunda, é o sentido. E, quando o sentido está ausente, instala-se o que ele chamou de vácuo existencial: uma sensação de vazio que nenhuma nota, nenhum diploma e nenhuma metodologia inovadora consegue preencher por si só. Não é difícil reconhecer esse fenômeno nas salas de aula.

Um estudante que não encontra razão para o que aprende não é, necessariamente, um estudante preguiçoso ou desinteressado. Muitas vezes, é um estudante à espera de uma pergunta que ninguém fez. Uma pergunta simples, mas exigente: o que isso tem a ver com quem você é e com quem você quer ser? Quando a escola não consegue – ou não tenta – responder a essa pergunta, o conteúdo mais rico se torna ruído. E o aluno aprende, a seu modo, que aprender não tem sentido.

O problema não é novo, mas se aprofunda. Em uma época marcada por estímulos instantâneos, gratificação imediata e excesso de informação sem hierarquia, a capacidade de sustentar esforço ao longo do tempo depende, mais do que nunca, de uma ancoragem interior. Sem ela, o primeiro obstáculo real – uma reprovação, uma frustração, uma escolha difícil – pode ser suficiente para derrubar o que levou anos para construir.

A logoterapia de Frankl não oferece técnicas pedagógicas. Oferece algo mais fundamental: uma perspectiva. A de que educar não é apenas transmitir conteúdo ou desenvolver competências mensuráveis. É ajudar cada pessoa a encontrar razões pelas quais vale a pena aprender, crescer e persistir. Não razões genéricas e decoradas, fornecidas de fora para dentro – mas razões que emergem do encontro entre o que o estudante é e o que o mundo exige dele.

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Isso exige, da escola, uma disposição que vai além do planejamento curricular. Exige escuta. Exige a coragem de tratar o aluno não apenas como destinatário de conteúdo, mas como sujeito de uma história que ele ainda está aprendendo a contar. E exige reconhecer que a pergunta sobre o sentido não é um desvio da tarefa educativa – é, talvez, o seu núcleo mais essencial.

Frankl não saiu dos campos de concentração com respostas fáceis. Saiu com uma responsabilidade: testemunhar que, mesmo nas condições mais desumanas, permanece intocável uma dimensão da liberdade humana – a de escolher a própria atitude diante daquilo que não se pode mudar. Não a liberdade de escolher as circunstâncias, mas a de escolher quem se é diante delas.

Uma escola que forma apenas para o desempenho pode produzir alunos competentes. Uma escola que forma também para o sentido produz pessoas capazes de sustentar propósito diante da incerteza, de agir com integridade quando as circunstâncias testam o caráter e de contribuir para algo maior do que si mesmas.

A diferença entre as duas não está no método. Está na pergunta que se tem coragem de fazer.

Lílian Schreiner Módolo é doutora e mestre em Administração pela USP, professora universitária e de pós-graduação, e empresária.

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