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Como Joesley Batista ficou tão próximo de Donald Trump?

“Posso eu mesmo ligar?”. Foi com essa naturalidade, segundo relatos de bastidores publicados pela CNN Brasil, que Joesley Batista se ofereceu para resolver um problema que vinha incomodando o governo do PT há meses.

Durante um encontro no Palácio do Planalto, no dia 30 de abril, Lula reclamou para o empresário goiano da dificuldade de conseguir uma agenda com Donald Trump. O comentário tinha um tom de constrangimento que um chefe de Estado só deixa transparecer quando as opções começam a acabar.

Joesley então pegou o celular e, na frente de ministros e assessores, ligou diretamente para o presidente dos EUA. Trump atendeu depois de três toques, falou com Lula por 40 minutos e encerrou a conversa com um simpático “I love you” — daquele seu jeito ao mesmo tempo amigável e esperto de negociante.

Dias depois, questionado por jornalistas em Nova York sobre o telefonema, Joesley Batista se limitou a dizer: “Não posso responder sobre isso”.

A cena diz muito sobre como o poder funciona de verdade: um dos personagens mais associados à Operação Lava Jato agora dá uma de diplomata informal e abre portas para o governo em Washington.

Não chega a ser uma reviravolta surpreendente, basta ver como Lula e todos os outros envolvidos no escândalo estão hoje. Mas, no caso de Joesley, existe um detalhe diferente.

Sua “reabilitação” no cenário tem menos a ver com a política brasileira e mais com a expansão global da JBS — a gigante de carnes comandada por ele e seu irmão Wesley.

Enquanto a Lava Jato tentava fazer uma limpa em Brasília, a companhia consolidava um processo de expansão agressivo pelos EUA. Financiada com recursos generosos do BNDES, a JBS passou a movimentar bilhões de dólares e se tornou indispensável na cadeia que mantém a carne barata nos supermercados americanos.

A ligação para Trump, portanto, é só o ponto de chegada dessa história.

“Tem que manter isso aí”

Em 2017, Joesley Batista quase colocou abaixo o governo de Michel Temer ao gravá-lo dizendo “Tem que manter isso aí” — o presidente se referia à suposta compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, que estava preso na época.

Joesley foi ao Palácio do Jaburu com um gravador escondido, porque estava fechando um acordo de delação premiada com a Lava Jato. O empresário confessou ter subornado quase dois mil políticos para beneficiar suas empresas e precisava entregar um peixe grande para reduzir sua pena.

O pacto com a Justiça deu ao empresário uma proteção inicial. Mas novos áudios levantaram suspeitas de que ele havia escondido informações da Procuradoria-Geral da República.

Joesley acabou sendo preso duas vezes naquele ano, inclusive acusado de lucrar no mercado financeiro com o impacto da própria delação. Depois, ficou três anos afastado oficialmente da gestão de suas empresas.

Sonho americano (com o seu dinheiro)

A “conquista da América”, no entanto, já havia começado uma década antes, com duas aquisições ousadas — e bancadas com dinheiro público brasileiro do BNDES.

Em 2007, os Batista compraram a Swift, um dos maiores frigoríficos dos Estados Unidos. Dois anos depois, foi a vez da Pilgrim’s Pride, a segunda maior produtora de frango do país.

Hoje a JBS controla cerca de 25% do mercado de carne bovina dos EUA e faz parte do grupo de companhias que dominam o setor de proteína animal no país. Nos estados onde Trump costuma vencer de lavada, é a empresa brasileira que paga o salário de mais de 70 mil trabalhadores.

Ou seja: quem segura o preço da comida no supermercado e emprega muita gente em redutos republicanos, dificilmente não será ouvido pelo presidente.

O fator Covid

Foi por isso que os frigoríficos ganharam importância estratégica durante a pandemia. Em 2020, temendo o desabastecimento, Donald Trump assinou uma ordem classificando essas empresas como “infraestrutura essencial” e as protegendo de fechamentos impostos por autoridades locais.

Nessa altura do campeonato, a JBS já não era só uma multinacional do Brasil. Tinha se tornado importante demais dentro da economia americana.

Mas o tamanho da companhia não explica tudo. Os Batista também fizeram seu dever de casa, montando uma operação de lobby de altíssimo nível.

Em 2021, os irmãos contrataram o escritório de Marc Kasowitz, advogado pessoal de Trump durante 15 anos. Naquele mesmo ano, trouxeram Kevin Arquit, executivo com ótimo trânsito no Partido Republicano, para chefiar o departamento jurídico global da JBS.

A jogada mais controversa, porém, envolveu uma injeção de dinheiro direta no círculo trumpista. No ano passado, a Pilgrim’s Pride doou US$ 5 milhões para a posse do presidente — foi a maior contribuição individual do evento, acima até de gigantes como Amazon e Google.

Multados e investigados

A senadora democrata Elizabeth Warren questionou se a doação não seria para comprar “acesso político” em Washington. Lideranças do agronegócio americano também acusaram os Batista de pagar por uma “taxa de entrada” para atuar no país.

Coincidência ou não, em meados de 2025 a JBS alcançou um objetivo que perseguia desde 2017: listar suas ações na Bolsa de Nova York.

A desconfiança não é infundada. Afinal, a trajetória do grupo nos Estados Unidos é marcada por investigações e multas pesadas.

Em 2020, o Departamento de Justiça dos EUA e a Comissão de Valores Mobiliários aplicaram mais de US$ 280 milhões em multas à JBS por casos de propina ligados à sua expansão no mercado americano. Em 2021, a Pilgrim’s Pride acabou pagando US$ 107,9 milhões por um esquema de cartel no setor de frangos.

No início de 2025, a JBS desembolsou mais US$ 83,5 milhões para encerrar acusações de manipulação de preços na carne bovina. E ainda há uma investigação aberta do Departamento de Justiça sobre um suposto “cartel da carne” envolvendo as quatro maiores empresas do setor (com a multinacional brasileira entre elas).

“Jogo perigoso”

Essa preocupação não vem apenas dos adversários de Trump. Setores de seu próprio partido também se mostram incomodados com o crescimento da companhia brasileira.

Peter Navarro, um dos conselheiros mais nacionalistas do presidente, passou a atacar o que chama de “lobby da carne representado por brasileiros”. Ele acusa a JBS de ameaçar a Casa Branca de forma indireta: se as tarifas subirem demais, a produção vai para a China, o que aumentaria o preço dos produtos nos EUA.

Já o estrategista republicano Jason Miller afirma que Joesley Batista está “jogando um jogo perigoso” ao usar seu celular pessoal para intermediar o contato entre Lula e Trump. “O pêndulo nunca esquece”, diz Miller, avisando que quem sobe rápido também pode cair na mesma velocidade — e será cobrado em algum momento.

Com Maduro e Delcy

Mesmo assim, a influência de Joesley vai além do Brasil e dos Estados Unidos. Em novembro de 2025, ele embarcou para Caracas por conta própria para se encontrar com Nicolás Maduro.

O objetivo era convencer o ditador a renunciar e aceitar um exílio, para evitar um confronto militar com os EUA. O governo Trump sabia da viagem, mas o empresário não foi como representante oficial de ninguém.

Após a captura de Maduro, em janeiro deste ano, ele voltou ao país. Desta vez, para se reunir com Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o poder. Joesley acabou levando às autoridades americanas a mensagem de que o novo governo estava disposto a abrir o setor de petróleo e gás para investimentos estrangeiros.

O motivo de tanto interesse não poderia ser outro: o grupo J&F, holding dos irmãos Batista, tem muitos negócios na Venezuela — nos setores de energia, finanças e agronegócio.

A relação com o chavismo é antiga. Em 2014 e 2015, durante a crise de abastecimento no país, a JBS fechou contratos na casa dos US$ 2,1 bilhões para fornecer carne bovina e frango à ditadura de Maduro.

Nos EUA, políticos como o senador republicano Marco Rubio já pediram investigações sobre as operações do grupo na Venezuela. Para eles, os acordos dos Batista com o regime venezuelano representam um risco à segurança nacional americana.

O retorno do investimento

Mas não custa voltar a um ponto dessa trajetória que nunca pode passar batido.

Um banco público, o BNDES, financiou boa parte das aquisições que fizeram Joesley Batista e a JBS ganharem tanta influência nos Estados Unidos. Tudo isso começou em 2005, ainda no primeiro governo petista.

O contribuinte brasileiro pagou a conta, e agora o PT colhe os frutos desse investimento. Foi um empresário preso duas vezes pela Lava Jato que emprestou o celular para Lula falar com Trump.

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