Advertisement

Como bets alteraram padrão de consumo das famílias brasileiras

O crescimento vertiginoso do mercado de apostas online no Brasil deixou de ser uma questão de nicho e já afeta o orçamento das famílias, alterando padrões de consumo que vão do vestuário e da alimentação à educação. O avanço das chamadas bets tem se tornado um problema para diferentes ramos da economia, que defendem medidas para restringir a atuação das plataformas.

Há algumas semanas, ganhou destaque a declaração do presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, de que o consumidor está deixando de comer carne em razão das despesas com apostas.

“Poderíamos estar expandindo o consumo, mas não estamos porque a pessoa está gastando dinheiro com outra coisa”, disse o executivo.

Segundo dados consolidados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o consumo médio de carne por habitante recuou de 35 kg em 2024 para 31,9 kg em 2025, o que corresponde a uma queda de 9%.

O valor médio da proteína animal, no entanto, ficou mais baixo, o que indica que o problema não está na inflação do setor. “Quando o preço cai e o consumo cai junto, o problema não é preço, é renda”, afirmou Perosa. Nesse contexto, segundo ele, as bets surgem como um dos principais motivos para o comprometimento da renda.

VEJA TAMBÉM:

  • Bets já pesam mais no endividamento das famílias do que juros e crédito, mostra estudo

Um estudo realizado em parceria entre a Tendências Consultoria e a Peers Consulting + Technology estima que mais de 25 milhões de pessoas façam apostas em pelo menos uma das 79 empresas autorizadas pelo governo federal a operar no país.

Ainda conforme o levantamento, o Brasil já é o quinto maior mercado global de apostas online, e a atividade movimenta entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês, impulsionada principalmente pela digitalização e pela popularização do Pix como meio de pagamento.

Segundo os autores, as bets têm promovido uma reorganização estrutural do orçamento das famílias brasileiras, especialmente nas classes C, D e E. Nelas, os valores direcionados às apostas afetam não só investimentos, mas também gastos essenciais.

“Os dados mostram que o setor deixou rapidamente de ser um nicho e passou a operar em escala nacional, com forte interiorização e alto grau de digitalização. Essa combinação de tecnologia, meios de pagamento instantâneos e baixa fricção de entrada ajuda a explicar a velocidade de crescimento”, diz Fernando Escobar, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology.

“Ao mesmo tempo, essa expansão já altera a dinâmica concorrencial em diferentes segmentos da economia e impõe o desafio de integração sustentável ao ambiente regulado”, acrescenta.

Apostadores deixam de comprar roupa e economizam no supermercado para gastar em bets

No varejo, estima-se que cerca de 23% dos apostadores deixaram de comprar itens de vestuário, e 19% reduziram gastos em supermercados para sustentar o hábito de apostar.

No setor financeiro, as bets competem diretamente com a poupança e outras formas de investimento. Em 2024, cerca de 15% da população realizou ao menos uma aposta online, percentual superior ao de uso de diversos produtos financeiros tradicionais.

Já no setor de educação superior, o estudo aponta que o crescimento do mercado de bets representa um novo fator que pode dificultar tanto o ingresso quanto a permanência de estudantes. A tendência é mais acentuada entre as classes de menor renda, devido à competição direta com recursos destinados ao pagamento de mensalidades.

“O avanço das apostas online no Brasil deve ser visto como mais do que um fenômeno conjuntural. O que observamos é uma nova dinâmica de competição pelo orçamento disponível, especialmente nas faixas de menor renda, com impactos que alcançam segmentos relevantes como varejo, serviços financeiros e educação”, afirma Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da Tendências Consultoria.

“Trata-se, então, de uma mudança estrutural no padrão de consumo das famílias, e esse movimento traz desafios tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista regulatório”, explica.

Desde janeiro, apenas casas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podem operar no Brasil, seguindo regras específicas e utilizando o domínio bet.br. Apesar da regulamentação recente, o estudo alerta que o mercado ilegal continua sendo o principal risco sistêmico do setor.

Estima-se que plataformas não autorizadas representem cerca de 85% da receita bruta total, resultando em evasão fiscal superior a R$ 7 bilhões por ano.

VEJA TAMBÉM:

  • Auditoria aponta que 40% das bets operam irregularmente no país

Além dos prejuízos fiscais, o mercado informal aumenta a vulnerabilidade dos usuários, uma vez que não oferece mecanismos de proteção ao consumidor nem monitoramento de riscos.

Outro estudo recente, divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School, mostrou que as apostas já são o principal fator responsável pelo endividamento familiar no Brasil, quase duas vezes maior do que os juros — que estão em um dos maiores níveis da história — e o crédito. Segundo os autores, para cada aumento de 1% nas apostas, o endividamento cresce 0,23%.

A taxa de endividamento das famílias bateu recorde neste ano, atingindo 49,9%, segundo dados do Banco Central (BC). A inadimplência também chegou ao maior índice de toda a série histórica, iniciada em 2011. Segundo o Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito, divulgado pela autoridade monetária, o percentual de operações de crédito de pessoas físicas e jurídicas com atraso superior a 90 dias chegou a 4,4%.

Em abril deste ano, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), trouxe um panorama ainda pior: 80,9% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, com a inadimplência chegando a 29,7%.

Varejo propõe medidas ao governo para combater avanço das bets

Diante desse cenário, a Associação Brasileira dos Atacarejos (Abaas) levou recentemente ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), uma série de propostas para restringir o avanço das bets sobre o orçamento das famílias.

No fim do ano passado, a entidade lançou uma campanha para alertar a população a respeito do vício em apostas. No material, afirma que “o único vencedor é o dono do jogo – o jogador sempre perde” e que o jogo leva a “casos de separação de casais e suicídio”.

“Jogos de bets estão piores que a pandemia da Covid de 2020”, diz um cartaz da campanha.

Entre as propostas da Abaas estão o bloqueio mais rápido de sites ilegais de apostas, a restrição da publicidade digital em plataformas online, a limitação de jogos de cassino nas plataformas de apostas e o controle de transações financeiras, como o bloqueio de Pix para bets.

VEJA TAMBÉM:

  • Governo Lula lança Desenrola 2.0 com bloqueio de CPF em casas de apostas

No longo prazo, a entidade defende uma política de Estado nos moldes do que foi feito com a indústria do tabaco, ressaltando que, ao longo de 35 anos, políticas públicas ajudaram a reduzir o tabagismo em 74%, sem a proibição do cigarro.

Nesse sentido, o combate ao vício em bets deve ficar a cargo do Ministério da Saúde, sendo tratado como política sanitária, segundo o setor.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *