
Após décadas marcada pela concentração de usuários de drogas e pela atuação de redes criminosas no centro de São Paulo, a chamada Cracolândia deixou de existir como território fixo, segundo o governo paulista. A gestão estadual atribui o resultado a uma estratégia que combinou ações de segurança pública, assistência social, atendimento em saúde e repressão às organizações criminosas que sustentavam a dinâmica do local. O processo, no entanto, também gerou debates sobre a dispersão dos usuários, os limites das intervenções policiais e a efetividade das políticas públicas adotadas.
Vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (MDB-SP) afirma que o encerramento da Cracolândia foi resultado da integração entre Estado e município, da ampliação das ações sociais e de saúde e do enfrentamento ao ecossistema criminoso que operava na região. Nesta entrevista à coluna Entrelinhas, ele detalha a estratégia adotada pelo governo paulista, comenta os desafios jurídicos enfrentados durante a operação, avalia o combate às facções criminosas e fala sobre as perspectivas políticas para as eleições de 2026.
Entrelinhas: O senhor costuma citar o fim da Cracolândia como um caso de sucesso. O que houve de mais importante nesse processo e o que pode servir de exemplo para outros estados?
Ramuth: Primeiro, nós fomos pesquisar iniciativas em vários lugares do mundo para identificar o que havia em comum entre elas. Conversamos com muitos especialistas e percebemos que, ao longo de 30 anos, várias tentativas foram feitas para extinguir a Cracolândia, mas sem coordenação. Era como se todos estivessem no mesmo barco, remando para direções diferentes.
A partir da integração entre o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, criamos o Hub de Cuidado com Crack e Outras Drogas. Fazíamos abordagens na cena de uso e, quando as pessoas aceitavam ajuda, eram encaminhadas para hospitais especializados ou comunidades terapêuticas.
Em pouco mais de três anos, registramos cerca de 32 mil internações e acolhimentos. Mas o principal foi compreender que existia um ecossistema do crime sustentando aquela realidade. Passamos a identificar quem eram aquelas pessoas, realizamos operações frequentes e descobrimos que 85% do público era rotativo, ou seja, não morava ali.
Além disso, combatemos o entorno criminoso. Prendemos mais de 1.500 traficantes, fechamos ferros-velhos que recebiam materiais roubados, atuamos sobre pensões utilizadas pelo tráfico e avançamos na transformação da Favela do Moinho. Foi um trabalho que combinou assistência social, saúde e segurança pública.
Entrelinhas: Como o governo conseguiu superar os entraves jurídicos que historicamente dificultavam ações na região da Cracolândia?
Ramuth: Existia o temor de que a solução passasse por internações compulsórias em massa. Embora a legislação permita esse instrumento, entendemos que não seria o melhor caminho. Na prática, realizamos pouquíssimas internações compulsórias. As demais ocorreram pelo convencimento feito por equipes de saúde e assistência social.
Tivemos divergências com alguns atores institucionais. Havia pessoas que defendiam estratégias diferentes para lidar com a situação. Mas deixamos claro desde o início que não misturaríamos ideologia com gestão e que adotaríamos aquilo que considerávamos necessário para resolver o problema.
Também é importante destacar que o Ministério Público, enquanto instituição, foi parceiro. A operação Saúde e Dignidade, por exemplo, teve papel importante no fechamento de estabelecimentos irregulares e no enfrentamento de atividades criminosas. Houve dificuldades, mas conseguimos avançar com resiliência, ciência e paciência.
O trabalho continua. Hoje seguimos realizando abordagens e, a partir do próximo ano, pretendemos expandir os hubs de cuidado para cidades do interior, onde começam a surgir pequenas cenas de uso e aumento da população em situação de rua.
Entrelinhas: O senhor tem defendido ações mais duras contra as facções criminosas. Como avalia a cooperação internacional no combate ao crime organizado?
Ramuth: Vejo três pontos importantes. O primeiro é dar visibilidade ao problema. As facções criminosas vêm se expandindo e atuando inclusive em atividades aparentemente legais. É importante que a sociedade compreenda esse risco.
O segundo aspecto é o combate ao crime financeiro. Não existe organização criminosa forte sem mecanismos de lavagem de dinheiro. Por isso, toda iniciativa que fortaleça a fiscalização financeira é positiva.
O terceiro ponto é a cooperação internacional. Ferramentas de inteligência desenvolvidas para combater organizações terroristas podem contribuir no enfrentamento às facções criminosas. Quanto mais cooperação houver entre países, maior será a capacidade de combater essas estruturas.
Ao mesmo tempo, São Paulo apresenta indicadores históricos de redução de homicídios, roubos e furtos. Ainda assim, o combate ao crime organizado exige constante aperfeiçoamento.
Entrelinhas: Pensando nas eleições de 2026, como o senhor avalia o cenário político em São Paulo?
Ramuth: Nosso grupo já tem uma pré-candidatura consolidada, liderada pelo governador Tarcísio de Freitas. No período eleitoral, teremos a oportunidade de apresentar à população aquilo que foi realizado ao longo da gestão.
Entendemos que uma eleição funciona como um grande plebiscito. A população avalia se deseja a continuidade do governo ou se prefere uma mudança. Acreditamos que temos resultados importantes para mostrar.
Na educação, por exemplo, implementamos o Provão Paulista e ampliamos oportunidades para estudantes da rede pública. Na saúde, criamos a Tabela SUS Paulista para enfrentar o subfinanciamento do setor. Na segurança, alcançamos indicadores históricos. Também avançamos em infraestrutura, com obras como o Rodoanel Norte, o túnel Santos-Guarujá e a expansão da malha metroviária.
Nosso foco permanece no trabalho e na entrega de resultados. Quando chegar o período eleitoral, estaremos preparados para apresentar à população tudo aquilo que realizamos e os compromissos que assumimos para o futuro.
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