
Em janeiro de 2023, numa casa de Duxbury, Massachusetts, uma mulher chamada Lindsay Clancy matou os três filhos; era enfermeira obstétrica, o julgamento começou em julho e, enquanto escrevo, o júri ainda delibera. Não é do caso que quero falar, mas do que se disse sobre o caso.
A primeira coisa que aconteceu, assim que seus diários foram lidos no tribunal, foi que milhares de mulheres se reconheceram neles: o horário das sonecas anotado minuto a minuto, a culpa pelo desmame, o medo de arruinar o desenvolvimento de uma criança por não ter feito corretamente alguma coisa que os livros dos especialistas mandavam fazer. Uma socióloga, Ashley Frawley, descreveu isso no mês passado, e sua observação é mais sutil do que o escândalo: quem leu aquelas páginas não leu a confissão de uma desconhecida, mas algo que elas mesmas poderiam ter escrito. Foi um enorme espelho cultural. Dessa identificação não nascia uma tese, mas compaixão; e a compaixão, ao procurar onde se apoiar, encontrou uma única palavra disponível para aliviar o peso que aquela mulher carregava sozinha: corresponsabilidade.
A palavra é boa, e aquilo que ela nomeia é justo, e nada do que segue é contrário a ela. Que um pai troque a fralda, cozinhe, levante-se à noite e leve o filho saudável ao pediatra não é uma gentileza que ele concede; e a maneira como isso será distribuído dentro de uma casa pertence à prudência de duas pessoas que se conhecem e que dificilmente serão conhecidas melhor por uma lei que pretenda obrigá-las a fazê-lo.
Minha pergunta aqui é sobre o que é preciso dar como pressuposto para que repartir seja a palavra que resolve a questão. Porque repartir é o que se faz com uma carga, e uma carga é aquilo que pode passar de uns ombros para outros sem deixar de ser a mesma coisa; o vocabulário vem do trabalho, e ao trabalho ele se ajusta com exatidão, pois há ali uma tarefa, a tarefa tem um peso, e o peso deve ser distribuído com justiça.
Mas falta saber se o filho é uma tarefa, um projeto a ser otimizado.
A cultura que Frawley retrata pressupõe que sim: se o sono, o leite, o apego, as telas e os marcos do desenvolvimento forem administrados corretamente, se a planilha doméstica estiver equilibrada, obtém-se um resultado; e, se o produto falhar, o fracasso tem um nome e um rosto. A técnica deixa de servir à maternidade e começa a julgá-la. Mas isso já não é amar alguém; é fabricar alguma coisa. O artesão quer que sua obra saia bem-feita, e a quer assim segundo as regras de sua arte; a mãe, ao contrário, quer o bem de seu filho, porque se ama um filho simplesmente porque ele é filho.
Vale a pena olhar com calma para um exemplo antigo, porque não é aquele que esperaríamos: quando Santo Tomás pergunta se é mais próprio da caridade amar ou ser amado, e responde que é amar, ele procura uma prova e vai encontrá-la onde ninguém a procuraria: nas mães que entregam seus filhos a uma ama de leite. Elas os amam, diz ele, tomando isso de Aristóteles, e nem sequer pretendem que eles lhes correspondam. Eis a prova que procurava: a mãe não é paradigma do amor porque faça mais pelo amado, mas porque seu amor subsiste mesmo sem reciprocidade. Ele não escolheu a mulher que não se afasta do berço, que teria sido o exemplo óbvio e o mais comovente; escolheu aquela que soltou o filho, e a escolheu porque nela o amor fica à vista, desnudo, sem nada por cima.
Porque quase tudo o que existe ao redor de uma criança pode ser feito por outra pessoa: outros braços a levantam quando chora e fazem isso igualmente bem, outro peito a alimenta, outra voz lhe ensina as primeiras palavras, outra mão lhe lava o rosto, outra memória acompanha suas vacinas e seu crescimento. Nada disso é desprezível; tudo isso é trabalho verdadeiro que pode ser colocado em outras mãos, e de fato assim foi em quase todas as épocas e em quase todos os povos, sem que ocorresse a alguém que aquelas mulheres tivessem deixado de ser mães. É possível retirar da maternidade, uma a uma, quase todas as tarefas que associamos a ela; e, quando todas foram retiradas, permanece aquilo que não pode ser repartido. Eis a razão pela qual se diz que ela é quem mais ama, e não porque trabalhe mais ou assuma mais tarefas.
Há uma palavra que diz tudo isso melhor do que qualquer argumento: uma das palavras com que a Escritura nomeia a misericórdia não vem do julgamento nem da vontade, mas do corpo. Ela pertence à mesma raiz que o nome do útero, de modo que dizer que Deus se compadece significa dizer, na língua em que isso foi dito primeiro, que suas entranhas maternas se movem. O latim conservou o vestígio, e o Benedictus ainda o canta: per viscera misericordiæ Dei nostri, pelas entranhas de misericórdia de nosso Deus. Depois, a língua emprestou a palavra a todos, e assim dizemos com o Salmo que um pai se compadece; mas o nome havia nascido em outro lugar.
Não se trata de uma mãe sofrer mais do que um pai pelo mesmo filho, porque às vezes sofre menos, e não cabe a ninguém medir isso. Trata-se de que ela não sofre no mesmo lugar. O pai não carregou corporalmente o filho dentro de si: ama-o como filho seu e pode sofrer por ele a ponto de dar a vida. A mãe compartilha tudo isso, mas guarda, além disso, uma memória que seu próprio corpo conheceu antes que ela pudesse nomeá-la: houve nela um espaço que foi o lugar daquele filho.
O que não pode ser repartido não é uma qualidade, nem uma intensidade, nem um mérito: é uma relação que tem, além disso, um onde.
Assim, a palavra corresponsabilidade não falha pelo que determina, mas quando pretende dizer tudo. Para repartir, é preciso primeiro dividir, e isso não se deixa dividir em partes. Pode-se repartir tudo o que uma mãe faz. Não se pode repartir quem ela é para seu filho. Quem reparte fica em paz quando repartiu bem; uma mãe pode estar perfeitamente em paz com o fato de o pai fazer metade, mais da metade ou quase todo o trabalho doméstico, mas jamais poderá transferir-lhe sua maternidade. Não é um peso grande demais para dois: é o modo entranhável pelo qual ela é alguém em relação a outro.
Tudo isso tem, acima, uma figura. A Igreja a chama de Imaculada, Assunta, Auxílio, Estrela do Mar, e nenhum desses nomes se sustenta sozinho; todos dependem de um só, definido em Éfeso há mil e seiscentos anos, que não comemora algo realizado, nem recompensa serviços prestados, nem uma lista de tarefas assumidas. Nós, filhos exilados de Eva, passamos mil anos cantando isso todas as noites sem perceber o que dizemos. A antífona reúne as duas coisas sem nos permitir separá-las: Salve, Regina, Mater misericordiae. Sua realeza não está ao lado de sua maternidade como outra honra acrescentada: ela reina porque é Mãe. E é Mãe de misericórdia porque é Mãe daquele que é a Misericórdia, e porque essa palavra, antes de significar compaixão, nomeava, na língua de seus pais, o lugar onde ela o carregou; por isso a invocamos para que volte para nós esses seus olhos. E, no fim, não lhe pedimos contas de uma obra bem-feita; pedimos que nos mostre Jesus, fruto bendito de seu ventre.
Álvaro Ferrer Del Valle é editor da Revista Suroeste e diretor-executivo da Comunidad y Justicia, organização chilena sem fins lucrativos que atua na defesa dos direitos humanos, do Estado de Direito e de princípios da Doutrina Social da Igreja Católica, com foco em temas como vida, família, liberdade religiosa, liberdade de ensino e direito dos pais à educação dos filhos.
©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: Fruto, no resultado

















Leave a Reply