Além de lidar com os baixos índices de intenções de votos nas pesquisas, as campanhas à Presidência da República de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) têm um segundo desafio para lidar: o destaque que tanto Augusto Cury (Avante) quanto Renan Santos (Missão) têm alcançado.
Nas últimas semanas, o desempenho de Cury nas pesquisas eleitorais isolou cada vez mais o desempenho dos ex-governadores de Minas Gerais e de Goiás. O acirramento da posição antissistema do candidato Renan Santos (Missão), com a controvérsia sobre a suspensão de sua candidatura, contribuiu ainda mais para o isolamento de Zema e Caiado.
Pesquisa PoderData divulgada na quinta-feira (10) demonstra o cenário. No levantamento, Ronaldo Caiado chega a 2% e Zema tem apenas 1% das intenções de voto. Augusto Cury, no entanto, aparece com 10% das intenções de voto, seguido por Renan Santos, com 3%.
Na sondagem anterior do instituto, em 3 de setembro, o candidato do Avante foi o primeiro a ultrapassar os dois dígitos em uma sondagem para presidente da República nas eleições em 2026, além de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na pesquisa PoderData publicada em 27 de agosto, Augusto Cury estava com apenas 4% das intenções de voto.
Metodologia PoderData 10/9/2026: 3.000 entrevistados pelo PoderData de 6 a 9 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 1,8 pontos percentuais para mais ou para menos. Registro no TSE nº BR-04914/2026.
Metodologia PoderData 3/9/2026: 3.000 entrevistados pelo PoderData do dia 30 de agosto a 2 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 1,8 pontos percentuais para mais ou para menos. Registro no TSE nº BR-07561/2026.
Metodologia PoderData 27/8/2026: 2.400 entrevistados pelo PoderData do dia 23 a 26 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Registro no TSE nº BR-04974/2026.
Augusto Cury conquista eleitores como “novidade eleitoral”
Para o analista político Deividi Lira, o crescimento repentino de Augusto Cury na pesquisa se deve a uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, o eleitor estaria exausto com a polarização entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL) e buscaria alternativas a essa narrativa.
Depois, segundo Lira, Cury fala o que o eleitorado quer ouvir. “Ele fala sobre as dores e desejos do eleitorado, se mostra preocupado com a saúde e, em especial, com a saúde mental da população”, afirma o analista.
Soma-se a isso o fato de Augusto Cury já ter construído, ao longo de décadas, uma audiência como autor e palestrante, o que lhe garante presença digital superior à de outros políticos.
O principal impulsionador do salto de Cury, segundo Lira, é que os debates televisionados ajudaram o público a associar o escritor já conhecido ao candidato que aparece na televisão.
“Augusto Cury é percebido como uma novidade política, enquanto Caiado e Zema têm experiência de gestão da máquina pública. Eles não conseguem apresentar isso por meio de uma narrativa. Além disso, não são conhecidos em outros estados”, diz o analista.
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Renan Santos atrai eleitor com discurso de “justiceiro”
Para Felipe Alves, sócio da consultoria de marketing político Idealis Comunicação, o crescimento de Renan Santos se deve ao discurso antissistema que o candidato assume.
“Renan se posiciona contra tudo e contra todos, como “o justiceiro”. Ele traz consigo o voto de protesto, onde as pessoas que não se veem representadas pelos políticos tradicionais apostam nos chamados outsiders da política”, diz Alves.
O especialista cita o próprio desempenho de Pablo Marçal como exemplo do fenômeno: assim que registrou a candidatura, o candidato do PRTB já assumiu posição de destaque nas pesquisas, ainda que, como mostram as sondagens do PoderData, já esteja abaixo de Cury e Santos.
“O eleitor gosta da ousadia do discurso no ambiente digital, e isso torna esses candidatos mais visíveis”, afirma Alves. Ele pondera, no entanto, que o voto consciente e o voto útil tendem a concentrar, no fim da campanha, boa parte desse eleitorado em torno de quem lidera a corrida.
Alves também atribui parte da fragmentação à lógica das coligações estaduais. Com o posicionamento de independência da maioria dos partidos nas coligações nacionais, cada estado tende a se alinhar com o que trará um melhor resultado local para as chapas de deputado federal.
“Isso divide a militância e não gera unificação em torno de um nome. Um exemplo é a eleição de Raquel Lyra em Pernambuco, com eleitores de esquerda do PT e de direita do PL dividindo palanques”, diz o especialista.
Zema e Caiado não convertem currículo de gestão em capital nacional
Enquanto Cury capitaliza a novidade e Renan Santos mobiliza o voto de protesto, Zema e Caiado enfrentam um obstáculo diferente: ambos chegam à corrida presidencial com histórico de gestão à frente de seus estados. Essa credencial, contudo, não tem se traduzido em intenção de voto nacional, analisa Deividi Lira.
“Caiado e Zema apresentam um currículo de gestão dos seus estados, só que não conseguem vender isso para o eleitor e por isso ficam patinando nas pesquisas. Eles precisam transformar essa experiência à frente dos governos de Goiás e Minas Gerais em algo factível e passível de ser proposto para todo o Brasil”, afirma Lira.
Na leitura do analista, o desafio dos dois ex-governadores não é a falta de experiência administrativa, mas a dificuldade de convertê-la em discurso nacional em um cenário eleitoral cada vez mais disputado por outsiders.
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