Há filmes que envelhecem mal. Outros que permanecem presos ao seu tempo, como documentos de uma atmosfera que já desapareceu. Há aqueles, por fim, que esperam décadas até que a realidade lhes devolva atualidade. Lançado em 1970, Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita, de Elio Petri, pertence a esta última categoria.

O filme foi lançado na Itália em meio a um ambiente convulsionado. Mas sua questão fundamental não ficou confinada àquele momento: o que acontece quando o homem encarregado de fazer cumprir a lei acredita que sua posição o coloca fora do alcance dela?

A trama é simples e perturbadora. Um alto funcionário da polícia assassina a própria amante. Em vez de esconder seu crime, ele propositalmente passa a deixar pistas óbvias, apenas para testar se os subordinados e o sistema terão coragem de investigá-lo e acusá-lo.

Interpretado por Gian Maria Volonté, o protagonista sem nome (ele é chamado de dottore) quer saber até onde pode avançar sem que sua posição o proteja. É quase um empreendimento sociológico. As pistas existem, os investigadores as encontram. As evidências estão diante de todos.