
Um relatório confidencial elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como “crítico” e elevado o nível de risco de influência e interferência do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026.
O documento, intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram reveladas pela colunista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo.
Segundo a agência de inteligência, há em curso uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”, marcada por uma “intensificação seletiva e reconfiguração” das ações norte-americanas, sem que haja ruptura com o padrão estrutural de influência já existente.
O diagnóstico se apoia em medidas adotadas por Washington desde o primeiro semestre, em meio às tensões diplomáticas e comerciais do segundo mandato do presidente Donald Trump.
Disputa hegemônica e foco em minerais críticos
Na análise da Abin, os Estados Unidos têm como prioridade a estratégica de reafirmação de sua hegemonia política no continente. O relatório sustenta que o governo do presidente Donald Trump busca conter o avanço de potências rivais, em particular a China, e restringir o acesso a ativos estratégicos, recursos naturais e infraestrutura na região.
Nesse tabuleiro, o Brasil é apontado como um ator dotado de “maior disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica” diante das cobranças por alinhamento automático. A postura do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aprofunda laços com Pequim e atua no bloco dos Brics, tornaria o país mais suscetível a atritos diplomáticos e medidas econômicas por parte dos Estados Unidos.
Sanções financeiras e narcotráfico
Outro ponto de alerta destacado pela inteligência brasileira é o que chama de “mudança de fase” na atuação dos EUA. A Abin destaca a aplicação de sanções, formalizadas em julho pelo Departamento do Tesouro norte-americano, contra brasileiros e empresas investigados por suspeita de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Para a agência, ao atingir pessoas físicas e jurídicas nacionais, a estratégia de Trump passa a incidir diretamente sobre reputação de empresas, fluxos em dólar e transações bancárias internacionais. O texto aponta a preocupação de que o enquadramento de organizações criminosas como ameaça ou grupos terroristas sirva de instrumento para justificar intervenções extraterritoriais com reflexos sobre a soberania nacional.
A mira em Rubio e documento eleitoral
O documento da Abin também dedica espaço ao secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio. O órgão avalia que as declarações de Rubio, que chegou a responsabilizar o presidente Lula por tarifas impostas a exportações brasileiras sob a alegação de falta de “boa-fé” nas negociações, adicionam um tom de disputa política e ideológica capaz de repercutir no debate interno do país.
O alerta da inteligência ganha relevo dias após a divulgação de que autoridades norte-americanas tentaram incluir, em tratativas bilaterais sobre tarifas e minerais estratégicos, cláusulas sobre a política interna brasileira. Entre as propostas figurava um compromisso para que o Brasil assegurasse “eleições presidenciais livres e justas em 2026” e não limitasse a atuação de dissidentes políticos.
Em declarações recentes, o presidente Lula desqualificou o teor dessa proposta, afirmando tratar-se de um documento “recusado” e que já constava no “arquivo morto” do governo, reiterando que o país não aceitará interferências externas na condução de seus recursos e de sua soberania.

















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