Muda o Bolsonaro, mas o repertório de Lula continua igual. “Fascista nenhum vai governar este país”, prometeu o presidente na segunda-feira (19), depois do debate com Flávio.
Jair levou esse golpe baixo várias vezes. Em 2019, por exemplo, Lula afirmou para uma plateia de artistas que “Como na Alemanha nazista, [os bolsonaristas] querem destruir o Brasil começando pela cultura”.
Já de volta ao poder, em 2023, o presidente disse num evento da UNE: “Há pouquíssimo tempo, vocês conheceram o que é o fascismo e o nazismo”. Como se o país tivesse acabado de sair do Terceiro Reich.
Mas os Bolsonaro não foram os primeiros, nem Lula é o único petista que costuma tirar da manga a carta do nazismo e fascismo. Há décadas, políticos, dirigentes e intelectuais do partido recorrem a esse expediente para desqualificar quem ameaça seu projeto de poder. Mesmo se o adversário for de esquerda.
A tática é antiga: a propaganda política stalinista já carimbava opositores como fascistas. A seguir, selecionamos 13 episódios que mostram como o PT segue à risca essa cartilha desde muito antes de Jair Bolsonaro.
1. Quércia e a Gestapo
Na disputa pela Presidência em 1994, Lula associou Orestes Quércia (PMDB) à polícia secreta de Hitler. Segundo o petista, o adversário contratava jornalistas para investigar rivais e ficar de olho nos próprios colegas de partido. “Quércia usa métodos semelhantes aos da Gestapo”, disse Lula, que na época já banalizava o nazismo quando partia para o ataque.
2. Genoino no Ratinho
Pré-candidato ao governo de São Paulo em 2002, José Genoino discutiu segurança pública com o deputado Afanásio Jazadji (PFL) no Programa do Ratinho. Ao ouvir a acusação de que o PT ajudava sequestradores, Genoino apelou para o velho mantra: mandou logo um “fascista” pra cima de Afanásio.
3. Bornhausen de uniforme nazista
Durante o mensalão, em 2005, o senador Jorge Bornhausen (PFL) falou em livrar o país “dessa raça”, referindo-se aos petistas. E adivinha como Luiz Marinho, então ministro de Lula, respondeu? Dizendo que Bornhausen tinha “saudades de Hitler”. Dias depois, cartazes com o senador vestido de nazista “misteriosamente” aparecem em vários pontos de ônibus de Brasília.
4. O “lado Pinochet” de Alckmin
Adversário de Lula no segundo turno de 2006, Geraldo Alckmin previu dificuldades para um novo governo petista durante uma sabatina na OAB. Ao rebater a declaração, o ministro Tarso Genro disse que o tucano estava “demonstrando seu lado mais perigoso, seu lado Pinochet”. Anos depois, o picolé de chuchu com supostas pretensões de ditador acabou servindo muito bem como vice de Lula.
5. FHC eugenista
Na campanha de 2006, Fernando Henrique Cardoso questionou em uma carta aberta as “condições morais” de Lula para disputar a reeleição. Malandramente, o petista insinuou que o ex-presidente desprezava os pobres dependentes de seus programas sociais — e ainda meteu uma eugenia no meio. “Daqui a pouco vão propor mudança no povo. E o Hitler serve como experiência de quem quer criar uma raça superior”, disse.
6. “Corte ideológico fascista”
José Serra acusou o PT de ter ligações com as Farc durante a campanha de 2010, contra Dilma Rousseff. A resposta veio, novamente, de Tarso Genro. E mais uma vez ele apelou. Segundo Genro, Serra usava uma “linguagem golpista”, com “corte ideológico fascista”. O curioso é que, na mesma entrevista, o petista condenou o expediente de tratar oponentes como extremistas.
7. Serra e o Führer
Serra mal tinha escapado de Tarso Genro e já virou Adolf Hitler na campanha seguinte — contra Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo, em 2012. O ataque veio na forma de um clipe, publicado no site oficial do petista, que juntava cenas do tucano e de Hitler fazendo gestos parecidos em discursos. Haddad assumiu o erro, mas quem pagou o pato mesmo foi o andar debaixo (no caso, um funcionário da equipe do marqueteiro João Santana demitido por divulgar o vídeo).
8. Conexão Acre–Berlim
Na mesma eleição, a filósofa petista Marilena Chauí viu “selvageria e barbárie” em Serra e “populismo de extrema direita” em Celso Russomanno. Dois anos depois, ela faria um malabarismo retórico mirabolante para atacar Marina Silva, concorrente de Dilma. Chauí ligou a candidatura de Marina aos protestos de 2013 e associou o discurso apartidário daquele movimento ao fascismo e ao nazismo. Estava feita a conexão Acre–Berlim.
9. Marina muçulmana
A Bíblia também vira uma arma na mão do PT. Em 2014, o ex-frei Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação, recorreu ao livro sagrado para classificar a evangélica Marina Silva como uma “fundamentalista com a mentalidade de alguns líderes muçulmanos”. Naquela eleição, valia despachar Marina para a Itália, para a Alemanha e até para o Oriente Médio.
10. A ditadura dos outros
Ainda em 2014, a campanha de Dilma Rousseff associou Marina Silva a “gente que vem lá do tempo da Arena e da ditadura”. O ataque na TV explorava o passado de seus apoiadores, como Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes. Sarney, Maluf e Delfim Netto — todos ligados ao regime militar — estavam com Dilma, mas os marqueteiros da “presidenta” devem ter esquecido disso.
11. Tucanos, a encarnação do mal
No segundo turno de 2014, Lula tentou defender Dilma das críticas de Aécio Neves comparando os tucanos com o que conseguiu achar de pior na História e na Bíblia. “Parece que eles estão agredindo a gente como os nazistas agrediam no tempo da Segunda Guerra Mundial”, disse o petista. Para arrematar, ele foi ainda mais longe: “Vocês são mais intolerantes que Herodes, que mandou matar Jesus Cristo”.
12. Mussolini de camisa polo
João Doria também ganhou seu broche de autoritário quando era prefeito de São Paulo. Num ato em defesa de Lula, em 2017, Lindbergh Farias o acusou de higienismo e, como de costume, apelou para o ataque clichê. “Esse fascista jogando água em cima de morador de rua”, disse. E, de repente, o engomadinho Doria virou Mussolini.
13. O “germe do fascismo”
Não faz tanto tempo que os petistas faziam questão de empurrar o PSDB para a extrema direita. Em 2018, o portal do PT publicou um texto acusando os tucanos de alimentar o “germe do fascismo” apenas para desgastar o partido. Não importa se o adversário é social-democrata, verde, liberal ou até ex-aliado: se ameaçou o PT, já pode vestir o uniforme de ditador.
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