
Na noite de terça-feira (27), autores, editores e convidados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) ocuparam a Sala São Paulo para a entrega do 68º Prêmio Jabuti, com a São Paulo Chamber Orchestra no palco tocando, entre outras peças, Odeon, de Ernesto Nazareth. Fazia dois dias que Luiz Inácio Lula da Silva havia sido reeleito, e a plateia ainda reagia ao resultado.
A cerimônia durou pouco menos de três horas, e quase uma delas foi de discursos de autoridades. Na abertura, a presidente da CBL, Sevani Matos, disse que um prêmio de 68 anos continua relevante porque valoriza “a riqueza da pluralidade de vozes da literatura brasileira”.
A primeira menção direta a Lula veio mais tarde, da presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Fernanda Pacobahyba, que lembrou a decisão do presidente de incluir em 2024 as bibliotecas públicas e comunitárias no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) Literário. A plateia respondeu com aplausos, gritos e o coro “Olê, olê, olá, Lula, Lula”.
A política voltou ao palco na entrega de Romance de Entretenimento. O baiano Ian Fraser, premiado por Cartografia para Caminhos Incertos, subiu dando vivas à democracia, de camisa vermelha estampada com o rosto de Lula. E, ao posar para uma foto com o estimado Jabuti em uma das mãos, decidiu levantar a outra para fazer o L.
A poeta de 90 anos e os três jurados
Na categoria Poesia concorria O Jardim das Oliveiras, primeiro livro de poemas inéditos de Adélia Prado desde 2013. A mineira de Divinópolis recebeu em 2024 o Camões e o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo conjunto da obra, e escreve há meio século uma poesia atravessada pela fé católica. O título do novo livro remete ao jardim do Getsêmani, onde Jesus rezou na véspera de sua crucificação. “Sem essa fé, eu não teria escrito nada disso”, disse ela numa entrevista de 1979.
Adélia estreou aos 40 anos. Professora em Divinópolis, mandou em 1975 os originais de Bagagem para Carlos Drummond de Andrade, que os encaminhou à editora Imago, no Rio, e o livro saiu no ano seguinte. Na entrevista de 1979, contou que ainda dava aulas de educação religiosa numa escola da cidade, mantinha atividades paroquiais e que, ao publicar o primeiro livro, sentiu vergonha de estar fazendo poesia, efeito de uma herança de preconceitos que tratava as mulheres como menores. Na mesma conversa, ela explicou por que prefere ser chamada de poeta: a palavra soa mais forte e mais bonita que poetisa, e a forma feminina, a seu ver, carrega o mesmo preconceito que a fez sentir vergonha no começo.
Em “Nada errado”, o sétimo poema de O jardim das Oliveiras, a poeta de 90 anos escreve: “Agora que fiquei velha, penso: coitada da mãe, não teve tempo de ver como Deus trabalha em cada um. Tá tudo certo.”
Uma semana antes, a Fundação Biblioteca Nacional havia dado a Adélia o primeiro lugar em poesia e posto em segundo Boris e Marina, de Alberto Martins. Tudo indicava que era uma das favoritas naquela noite paulistana. Mas os três jurados do Jabuti inverteram a ordem e deram o prêmio a Martins, com poemas que reinventam as cartas trocadas em 1926 por Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke.
Quase 50 depois do único Jabuti que recebeu, por O coração disparado, e num ano em que passou duas internações em um hospital em Divinópolis, Adélia ficou sem a estatueta.
A estatueta de Ruy Castro ficou com a editora
O último anúncio foi o do Livro do Ano, dado à obra mais bem avaliada entre as categorias de Literatura e Não Ficção, com R$ 70 mil e uma viagem a uma das grandes feiras internacionais do livro. Pela segunda vez seguida, o escolhido foi Ruy Castro, agora com Trincheira tropical, reconstituição do Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial que também venceu em Biografia e Reportagem. Em 2025, o título tinha ido para outro título do Imortal da ABL, O ouvidor do Brasil, suas 99 crônicas sobre Tom Jobim.
Castro, de 78 anos, não foi à Sala São Paulo, por motivo de saúde, e a maior distinção do prêmio mais tradicional do país ficou nas mãos de sua editora na Companhia das Letras, a mesma casa que publicou Boris e Marina.

















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