Óbvio que é difícil entender gente que, diante do Brasil atual, prefere que as coisas continuem como estão. Ficamos profundamente decepcionados porque acreditávamos que a realidade brasileira – os fatos, puros e simples – seria suficiente para convencer qualquer pessoa de bem de que a única opção possível era mudar de direção. Não foi.

Mas a decepção não nos dá o direito de transformar o eleitor do outro lado em “inimigo”. Sim, eu sei: eles fazem isso conosco o tempo todo. Há anos, qualquer pessoa que ouse não ficar de joelhos diante do sistema e dos poderosos de plantão que estão ao lado de Lula é tratada como cidadã de segunda classe. É calada. É perseguida. É chamada de fascista por defender a liberdade. É tratada como antidemocrática por querer uma democracia melhor. É condenada por protestar por aquilo em que acredita. É linchada virtualmente com requintes de crueldade. Sei de tudo isso e, justamente por isso, não podemos fazer o mesmo.

Neste momento, há batalhas muito mais importantes do que entender porque tanta gente votou em Lula ou tentar convencer aquele seu amigo petista de que ele errou. Um exemplo prático? Não permitir que o Senado continue nas mãos de quem trabalha para manter tudo como está

Já escrevi aqui antes, após o resultado do primeiro turno, que “aceitar o direito de ‘votar errado’ é o primeiro princípio da democracia”. Por mais que algumas escolhas nos pareçam incompreensíveis, o voto é livre. Cada um vota de acordo com suas convicções, seus interesses, suas prioridades – e até suas ilusões, medos e apegos. Podemos achar que alguém fez uma péssima escolha. Podemos dizer isso, argumentar, criticar, tentar convencer o outro a mudar de opinião. O que não podemos é exigir que as pessoas votem como nós, tratá-las mal ou, pior, persegui-las porque fizeram uma escolha diferente.