Há situações em que a realidade parece disputar espaço com a ficção, especialmente quando a burocracia estatal, revestida de sua habitual autoridade técnica, resolve se aventurar por terrenos que exigem um pouco mais do que o preenchimento de formulários e a aplicação mecânica de critérios administrativos. Foi precisamente o que aconteceu na última semana, quando o Ministério da Justiça decidiu elevar de livre para 12 anos a classificação indicativa do programa infantil Record Kids – Desenhos Bíblicos, exibido há anos pela televisão brasileira, sob a justificativa de que suas animações apresentariam atos criminosos, drogas lícitas, violência e situações de estigma ou preconceito.

Não deixa de ser curioso que, depois de séculos em que pais e mães transmitem aos filhos as narrativas bíblicas como parte de sua formação espiritual, moral e cultural, tenhamos chegado ao ponto de uma repartição pública considerar necessário advertir as famílias de que aqueles desenhos não seriam recomendados para crianças menores de 12 anos.

A decisão, publicada no fim de outubro, provocou imediata reação de parlamentares, lideranças religiosas e diversos setores da sociedade civil, levando o próprio Ministério da Justiça, no dia 3 de novembro, a reconhecer que a classificação havia sido realizada sem a observância integral dos critérios estabelecidos pelo seu Guia Prático de Classificação Indicativa, especialmente no que diz respeito ao contexto cultural e religioso das narrativas e às características próprias das animações infantis. O governo federal recuou e restabeleceu a classificação livre. Mas a correção do equívoco, embora mereça reconhecimento, não elimina uma pergunta que consideramos indispensável: como foi possível que o órgão responsável pela avaliação de conteúdos culturais desconsiderasse justamente a natureza religiosa de uma produção dedicada a apresentar histórias da Bíblia às crianças?

Chegamos ao ponto de uma repartição pública considerar necessário advertir as famílias de que desenhos bíblicos não seriam recomendados para crianças menores de 12 anos