
O anúncio feito pela Renault de um investimento de mais R$ 2 bilhões em sua fábrica brasileira, no Paraná, não é uma simples informação de injeção de mais dinheiro para a produção de carros. E pouca gente se atentou para isso, pois este tipo de anúncio é uma constante na indústria automotiva brasileira para fazer novos lançamentos, modernização da linha de montagem, etc. Este, feito pela Renault, tem um significado maior, pois servirá para fabricar no Brasil, possivelmente aquele que será o seu modelo mais moderno e tecnológico, o Renault Arkana.
Há quatro anos este carro já havia sido anunciando para chegar ao Brasil. Em principio importado, mas agora será fabricado aqui usando uma moderna plataforma da chinesa Geely e será o primeiro carro na versão cupê e híbrido da Renault brasileira. Ele já é produzido nesta mesma plataforma usada na Coreia do Sul, mas para o mercado brasileiro e latino americano terá outras características e uma localização maior. Se a Renault manterá o mesmo nome, Arkana, ainda não se sabe, mas provavelmente sim, conforme afirmou o CEO global da marca, Fabrice Cambolive.
A indústria automotiva brasileira está em transformação com a chegada das marcas chinesas, que estão se tornando referência em carros tecnológicos, modernos e bons. Com isso, as fabricantes tradicionais, que estão no Brasil há décadas, estão tendo que correr atrás para evitar o risco de fechar. E para não perder o bonde da história, a saída é se aliar com alguma dessas marcas, trazer tecnologia para o Brasil e usar disso tudo para não cair no esquecimento do consumidor brasileiro.
Renault foi a primeira a se associar a uma chinesa no Brasil
E a primeira marca e tomar uma decisão neste sentido foi a Renault do Brasil, que no ano passado vendeu um pouco mais de 25% de sua operação no Paraná para a Geely, uma das maiores da China e agora passa a compartilhar plataformas, tecnologia e produção de automóveis das duas marcas. E este compartilhamento começa com o Arkana em 2027, mas já está produzindo em suas linhas carros da Geely, como o SUV EX5 E-MI, híbrido plug-in e em dezembro começa com o EX-2, 100% elétrico.
Ex-presidente da Renault do Brasil e hoje CEO global da marca e também membro do board da Renault Geely do Brasil, Fabrice Cambolive, afirma que “o Brasil é um dos mercados mais importantes da Renault fora da Europa e tem um papel fundamental para o futuro da marca em todo o mundo”. Sobre esta sociedade entre a chinesa Geely e a Renault do Brasil, que em um ano já se tornou um grande sucesso, Cambolive afirma que ela pode ser extendida para outras unidades do grupo. A primeira parceria deste tipo foi com a Coreia do Sul. “Sim, existe uma grande possibilidade em estendermos esta união para outras fábricas O objetivo é demonstrar, de forma concreta, o que podemos fazer juntos. Temos um exemplo muito claro do que essa parceria pode proporcionar: a possibilidade de oferecer eletrificação e novas tecnologias”.
E apontou uma das vantagens que esta união pode proporcionar. “Depois de anos de desenvolvimento e de trabalho, hoje estamos muito próximos de conseguir oferecer nossos produtos em praticamente todos os mercados do mundo. E conseguimos construir essa capacidade com base em uma dedicação muito grande”.
Agora estamos fazendo o mesmo no Brasil. Acho que a velocidade que estamos imprimindo aos novos projetos abre novas fronteiras, inclusive em alguns países da América Latina. Isso é bastante natural, porque o que estamos fazendo no Brasil tem potencial para ser levado para outros mercados da região”.
Mas tem algumas criticas a este tipo de acerto entre duas marcas de culturas tão diferentes e há quem afirme que no futuro a Geely poderá estar tomando conta total da Renault. Mas Fabrice Cambolive explica como estas parcerias estão sendo feitas.
“Ao mesmo tempo, estamos preservando nossa independência. Cada empresa mantém sua própria tecnologia e suas próprias competências. Não estamos compartilhando tudo. A parceria acontece onde existe interesse mútuo e onde podemos construir algo juntos, com benefícios para os dois lados”.
E a partir de agora a fábrica da Renault do Brasil passará a trabalhar com duas plataformas, uma própria, que também permite carros eletrificados e um novo modelo com tração 4×4 chega em 2027, e a da Geely, onde será montado o Arkana e que permite uma eletrificação mais completa. São plataformas complementares.
*Antonio Carlos da Silva é jornalista especializado na cobertura do mercado automobilístico e parceiro de conteúdo da Gazeta do Povo. As opiniões e análises expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a visão do jornal.

















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