Sarney disse um dia que a Constituição tornaria o país ingovernável. A manchete estampou a primeira página de O Globo naquela quarta-feira de novembro de 1987, e o presidente, à sombra de duas mangueiras nos jardins da residência oficial do governo paraense, confessou, com a polidez mortuária que lhe era característica, que o texto da Constituição saído da Comissão de Sistematização ameaçava transformar a República num organismo incapaz de governar a si mesmo.

Passaram-se trinta e sete anos e a profecia do maranhense sobre a Constituição, que à época soava como birra de quem perdia cinco anos de mandato para ficar com quatro, revelou-se de uma precisão quase obscena. O país ficou ingovernável, sim, embora a ingovernabilidade tenha assumido uma forma que Sarney, em sua prudência de político de província travestido de estadista, jamais ousaria descrever em entrevista coletiva.

O que se ergueu sobre os escombros da transição foi um modelo de Estado que, ao pretender abarcar todas as utopias simultaneamente, terminou por dissolver a única condição sem a qual nenhuma civilização subsiste, a saber, a primazia da lei sobre a vontade dos homens. A Constituição de 1988, vendida como carta de redemocratização e recebida com genuína comoção popular, funcionou, na prática, como um terreno de cultivo onde se plantaram, com método e paciência, as sementes de uma engenharia social cujos frutos hoje apodrecem à vista de todos.

Ora, convém lembrar que a gênese desse processo remonta a uma importação acrítica de teorias que jamais tiveram por horizonte a liberdade individual, mas sim a captura metódica das instâncias de poder. A chamada viragem gramsciana, que entre nós se operou sem o alarde de uma revolução e com a discrição de uma infiltração, consistiu numa estratégia de asfixia lenta pela qual a esquerda, tendo constatado a inviabilidade da via armada no Ocidente pós-guerra, migrou para aquilo que o próprio Gramsci batizara de guerra de posição.