Mais de 12 horas após a confirmação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito, seu homólogo americano, Donald Trump, não se manifestou ainda sobre a eleição brasileira, ao contrário de outros chefes de governo e Estado.
Quando Lula venceu em 2022, o então mandatário americano, o democrata Joe Biden, foi um dos primeiros líderes internacionais a parabenizar o petista – mas naquele caso, eram dois presidentes com afinidade ideológica.
Medidas que Trump tomou desde o ano passado, como tarifas sobre produtos brasileiros e designar os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, foram citadas por Lula durante a campanha como ameaças à “soberania nacional” e tentativas de interferência eleitoral.
Porém, ao contrário do que ocorreu em outras eleições desde que voltou à Casa Branca (como na Colômbia e em Honduras), Trump não declarou apoio a nenhum candidato na disputa brasileira.
Analistas acreditam que o silêncio do republicano traduz as tensões das atuais relações entre Washington e Brasília.
Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, disse em entrevista à emissora britânica BBC que Trump provavelmente esperava uma reaproximação com o Brasil sob Flávio Bolsonaro (PL).
“Acho que a expectativa é de que o Brasil aderiria ao [plano de segurança] Escudo das Américas, estaria negociando a mineração crítica, seria um seguidor da linha do Trump, como vários governos da região agora, como Colômbia, Chile e Peru”, disse. “E o fato de que isso não aconteceu vai ser uma decepção para o governo [Trump].”
Carlos Frederico Coelho, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse em entrevista à Gazeta do Povo que é incerto se o republicano vai endossar as contestações de Flávio ao resultado da eleição.
“Nessa questão, primeiro a gente precisa entender se de fato vai haver uma contestação aberta [de Flávio] ao resultado. Eu sei que houve ontem na declaração [após a confirmação do resultado]. A gente precisa saber qual vai ser o tamanho desse ímpeto daqui para a frente”, disse Coelho.
“Agora [se o presidente americano vai apoiar Flávio nessa contestação], é uma pergunta difícil, porque eu teria que mergulhar na cabeça do Donald Trump [risos]. Pode ser que ele sinalize que alguma coisa estranha ou nefasta possa ter acontecido no Brasil. Mas daí a apoiar, é outra coisa”, afirmou o analista, que, com “apoiar”, quis dizer “algo além de uma declaração”.
“Seria um apoio institucional do Estado americano, com seus instrumentos de pressão para contestar o resultado das eleições brasileiras, [mas] nisso eu não acredito. Mas quando o assunto é Donald Trump, a gente nunca pode colocar as coisas como impossíveis. Eu diria que é possível, mas diria que é improvável”, disse Coelho.
“Em relação à demora [para Trump se manifestar], não vejo maiores questões. Está alinhado ao estado da relação bilateral hoje em dia. Acho que seria estranho se fosse o contrário, dadas as imensas tensões que existem e vão continuar a existir”, disse o analista.
“Especialmente com o Escudo das Américas como um foco permanente de tensão e de distância entre os candidatos. O Flávio disse que ia fazer parte; o Lula certamente não vai fazer, faz disso uma linha que considera uma invasão de soberania. Então, a razão para o silêncio, em resumo, é o estado da relação bilateral”, acrescentou Coelho.
Anthony Pereira disse à BBC que acredita que o governo Trump terá uma relação pragmática com Lula no quarto mandato do petista.
“A leitura do governo Lula, e não acho equivocado, é de que Trump é pragmático, não é tão ideológico como o Departamento de Estado”, argumentou. “Não vejo uma possibilidade realista de a Casa Branca reverter o resultado da eleição, então a tendência seria negociar com o governo que existe no Brasil.”
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Seguindo outra linha, Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, disse em entrevista à Gazeta do Povo que o fato de o advogado de Donald Trump, Martin De Luca, e seu filho, Donald Trump Jr., terem criticado abertamente a prorrogação da votação neste domingo (25) exige atenção.
“Há uma percepção compartilhada por alguns analistas de que Donald Trump poderia deixar de reconhecer as eleições brasileiras e tentar retratar Lula como uma liderança que permanece ilegalmente no poder, em uma comparação com Nicolás Maduro”, afirmou Lucena.
“Não há certeza de que isso acontecerá. No entanto, caso essa situação se concretize, o impacto poderá ser bastante negativo. O Brasil poderia enfrentar uma deterioração significativa das relações com os Estados Unidos e ser considerado um destino menos seguro para investimentos, especialmente se Trump passar a comparar a política brasileira aos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela”, disse o analista, para quem a ausência de uma manifestação de Trump até o momento “é um fator de atenção”.
“Se ele fizer uma declaração negativa e não reconhecer o resultado das eleições, seguindo a posição expressa por Flávio Bolsonaro, os riscos para a atração de investimentos poderão aumentar”, pontuou Lucena.
“Essa situação colocaria em dúvida o processo eleitoral brasileiro perante a maior potência econômica do mundo, que também responde por mais de 30% do investimento direto estrangeiro destinado ao Brasil”, projetou.
O jornal Folha de S.Paulo publicou nesta segunda-feira (26) que o Departamento de Estado americano tinha pronto um comunicado parabenizando a população do Brasil pela eleição presidencial, mas decidiu segurar a divulgação após Flávio não reconhecer a vitória de Lula.

















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