
“A gente pensa que o homem pode ir andando para a frente. Pensa que o homem é livre … Não se vê a corda que o prende ao poço, que o prende, como um cordão umbilical, ao ventre da terra. Se dá um passo a mais, morre.” (Antoine de Saint-Exupéry)
Terminou mais um processo eleitoral nesse nosso arremedo de democracia e a direita, mais uma vez, saiu derrotada para o Executivo, e mais uma vez com um Bolsonaro a representando. Não quero aqui falar sobre as enormes controvérsias que permitiram essa catástrofe que foi a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, um dos maiores atrasos políticos de nossa história. Quero me ater ao futuro, ao que penso ser um caminho para a direita no Brasil, se quiser sobreviver ao populismo atávico que nos castiga ano após ano.
Quero lembrar o caríssimo leitor do que eu disse, num artigo publicado em 1.º de novembro de 2018, logo após o resultados daquelas eleições, e cujo título é “O que esperar dos governados por Bolsonaro”. Eu não tinha ilusões e, diante do que imaginava como seriam as coisas, afirmei que:
“O trabalho de refundação de uma civilização em frangalhos – como a nossa –, a reconquista de nossa liberdade interior, é longo, exige prudência, perseverança e, sobretudo, inteligência; não pode ser conseguido em quatro ou mesmo oito anos. Não é o resultado de uma eleição, ainda que favorável, que nos dará um país melhor, mas o esforço incansável de cada um de nós, a responsabilidade de cada indivíduo por dar o melhor de si para a reconstrução de nosso país, assolado por um populismo rasteiro e corrupto há décadas.”
A direita brasileira morreu antes de nascer porque não está assentada sobre nenhum fundamento
Esse, aliás, era o principal tema de discussão nos ainda incipientes círculos de direita quando deles me aproximei, no início nos anos 2010. Tal ideal, em grande medida difundido por Olavo de Carvalho (de quem nunca fui aluno, mas cujo trabalho de curadoria acompanhei sempre com atenção), nos incutiu a necessidade de estudar com afinco os autores por ele divulgados e publicados pelas várias editoras – como a É Realizações, a Vide Editorial e a LVM – dedicadas a publicar obras que havia muito eram propositalmente negligenciadas por nossas editoras tradicionais.
Em pouco mais de dez anos, centenas de livros, de autores importantíssimos do pensamento conservador e liberal, nos chegaram às mãos pelo trabalho diligente dessas editoras, que nos fizeram formar grupos de estudos, organizar palestras, escrever artigos e gravar vídeos discutindo e divulgando tais autores e ideias. Conscientizaram-nos de que o trabalho de recuperação do Brasil só seria possível com um trabalho de longo prazo não só de divulgação dessas ideias no debate público, mas de formação de lideranças políticas capazes de defendê-las na arena institucional, há muito dominada por ideologias e interesses particularíssimos.
Nesse contexto, Jair Bolsonaro foi um fenômeno no sentido estrito do termo: aquilo que é percebido pelos sentidos, segundo a etimologia. Diante da indignação com os escândalos de corrupção em sequência dos governos petistas, e de uma oposição incapaz sem energia suficiente para se opor, um pseudo-outsider emergiu e soube aproveitar a oportunidade.
E digo isso sem medo de ser mal compreendido pelo leitor, pois todos sabemos que Jair Bolsonaro, antes de ser eleito presidente, já era parlamentar havia 30 anos. Um parlamentar do chamado Centrão, como ele mesmo afirmou. Tampouco suas ideias eram desconhecidas. As muitas entrevistas disponíveis, as participações em programas de televisão, as polêmicas todas; tudo era de nosso conhecimento. E quando ele surgiu e se popularizou como o antipetista por excelência, impulsionado por memes de “mitadas”, e, depois, como representante da direita no pleito, condescendemos quase que por desespero.
Todas as pessoas daquele círculo de estudiosos da nova direita que mencionei acima – que, como sempre digo, se assemelhava a um Clube do Livro –, que se envolveram com a campanha e o governo Bolsonaro, sabiam que ele não era nem jamais tinha sido um representante do pensamento liberal ou conservador; ele nem sequer conhecia (talvez ainda não conheça) os autores. Tanto é que, na economia, sempre que era questionado sobre o tema, não respondia e evocava o seu “posto Ipiranga”, o economista Paulo Guedes. E, é forçoso admitir, a imensa maioria de seus eleitores também é completamente ignorante nos temas. É de direita por associação moral – ou moralista – e antipetismo. Bolsonaro foi o político – talvez o político errado – que estava no lugar certo, na hora certa.
E tudo o que a aconteceu desde a sua eleição, em 2018, nos trouxe a esse momento e à derrota de Flávio Bolsonaro no último domingo. Sim, o eleitor pode questionar a lisura do processo, acusar golpe e fraude, não tiro o seu direito. Mas não é disso que estou tratando aqui. Estou falando de uma direita que morreu antes de nascer porque não está assentada sobre nenhum fundamento; uma direita reacionária e intrinsecamente ligada a um projeto familiar de poder; uma direita formada, em grande medida, por crentes que fizeram uma associação espúria e irrefletida entre uma visão de mundo política e o Evangelho de Cristo. Tudo isso, em tese, por medo do PT e do suposto regime comunista que ele implantaria no Brasil.
Há toda uma tradição a ser recuperada, e é ela, não esse ou aquele político, que irá nos salvar dos que não pensam no progresso da sociedade, mas somente em seus próprios interesses
Por isso, conclamo os leitores a voltar a pensar nos conceitos, voltar a dar atenção às ideias e não às pessoas, a fim de que busquemos (ou formemos) novos representantes de nossos anseios e de nossas ideias.
Precisamos voltar a pensar no conservadorismo como uma atitude diante da vida política, moral e social, e não como uma ideologia. Que tal voltarmos a compreender os princípios conservadores definidos por pensadores como Russell Kirk, Roger Scruton, Michael Oakeshott ou mesmo João Camilo de Oliveira Torres? Por que não estabelecermos como princípio a crença em uma ordem moral duradoura, fundada na ideia de que a natureza humana tem características permanentes e de que a política não pode ser separada das questões morais? Por que não pensarmos na importância das tradições, dos costumes e da sabedoria acumulada pelas gerações, que não podem ser descartadas em favor de teorias abstratas ou arroubos revolucionários (ainda que à direta)? Por que não atentarmos ao princípio da Prudência, reconhecendo que a imperfeição humana torna ilusória a promessa de construir uma sociedade perfeita e livre de conflitos?
Por que não pensarmos o liberalismo a partir da ideia de que a economia de mercado – ou o chamado capitalismo – baseia-se na produção em massa, na concorrência, visando a melhoria do padrão de vida dos indivíduos e, consequentemente, da sociedade? Por que não defendermos que o intervencionismo (mesmo que à direita) e os problemas gerados pela interferência governamental no mercado são sempre questionáveis porque violam a iniciativa individual e o espírito de associação e devem ser olhados com extrema cautela? E pensarmos que a relação entre política e ideias na formação da opinião pública e da disputa intelectual é importantíssima para determinar os rumos da sociedade? E que a liberdade econômica, a propriedade privada, a acumulação de capital e a cooperação por meio do mercado são fundamentais para a prosperidade? Tudo isso está em Adam Smith, Ludwig von Mises, Joaquim Nabuco, André Rebouças e tantos outros.
Há toda uma tradição a ser recuperada, e é ela, não esse ou aquele político, que irá nos salvar, definitivamente, das mãos de oportunistas e pessoas que não pensam no progresso da sociedade, mas somente em seus próprios interesses. Quem tem ouvidos para ouvir, peço, encarecidamente, que ouça.

















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