No primeiro domingo de outubro, um eleitor decidiu ficar em casa. Talvez estivesse cansado da política, confuso diante de tantos candidatos ou sem condições de chegar à seção eleitoral. Três semanas depois, poderia ter mudado de ideia. O país era o mesmo. Os problemas também. Mas alguma coisa havia mudado na decisão de participar.

Esse é um dos fatos mais intrigantes das eleições presidenciais de 2026. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção caiu de 33,5 milhões para 30,5 milhões de eleitores entre os dois turnos, passando de 21,08% para 19,22%. Os votos brancos e nulos também diminuíram, somados, em aproximadamente 1,8 milhão. Em 2022, a abstenção já havia recuado, mas apenas de 20,95% para 20,59%. Em 2026, a redução foi mais de cinco vezes maior, em pontos percentuais. O que levou tantos brasileiros às urnas quando, historicamente, a participação tende a diminuir no segundo turno?

A teoria econômica da democracia oferece algumas pistas. Em An Economic Theory of Democracy (1957), Anthony Downs mostrou que a participação política também responde a incentivos. Votar exige tempo, informação e deslocamento, embora a probabilidade de um único voto decidir uma eleição presidencial seja praticamente nula. Esse é o conhecido paradoxo do voto. William Riker e Peter Ordeshook, no artigo A Theory of the Calculus of Voting (1968), publicado na American Political Science Review, aprofundaram essa questão ao incorporar benefícios associados ao dever cívico e à satisfação de participar da vida política. A ideia central é simples: a decisão de votar depende não apenas dos resultados esperados, mas também dos custos e benefícios da própria participação. E esses incentivos podem mudar entre dois turnos de uma mesma eleição.

No primeiro turno de 2026, o brasileiro precisou fazer seis escolhas: deputados federais e estaduais, dois senadores, governador e presidente. No segundo, restaram duas candidaturas presidenciais e, em alguns estados, também a disputa para governador. A decisão tornou-se menos complexa. Isso pode ter reduzido uma espécie de imposto informacional, o esforço necessário para compreender as alternativas políticas e decidir em quem votar.