
Lula voltou de um encontro com Trump – o primeiro, em décadas, de um país importante como o Brasil que prescindiu da tradicional entrevista coletiva posterior – apresentando dois planos na mesma semana (a primeira vez em que parece ter lembrado que é presidente nos últimos 3 anos). O primeiro envolveu o cancelamento da taxa das blusinhas, que ele próprio criou, e um plano de combate à criminalidade, que parece ter virado uma pauta bem quando precisa se reeleger.
As duas pautas – economia e criminalidade – estão intrinsecamente ligadas e apartadas do discurso médio da esquerda. O domínio quase hegemônico da esquerda dá-se em áreas ligadas principalmente ao imaginário coletivo. Os marxistas são presença obrigatória na crítica literária e social, nas artes, no jornalismo, na história – mesmo em áreas como a análise de religiões ou a psicologia. Os direitistas, quando tinham alguma presença, eram em áreas técnicas, como o direito, a economia ou as disciplinas mais científicas.
Porém, a perda do dinheiro – seja em um assalto, seja evaporado por políticas econômicas desastrosas – é algo sentido mais imediatamente, sem a mediação da imaginação, da ideologia, da afetividade artificial a um político longínquo, do qual só se conhece recortes pré-selecionados. Por isto, justamente as duas áreas são mais “sentidas” em épocas eleitorais – mais até do que a educação, sempre desprezada por ter seus efeitos sentidos apenas em uma geração, ou mesmo a saúde, que depende de uma complexa trama de políticas, nem sempre facilmente associadas a uma ideologia, ou mesmo a um nome.
Já a perda de patrimônio é sentida pelo órgão mais sensível do corpo humano: o bolso. Logo, o tema é bem mais doloroso para a esquerda do que para a direita.
O pensamento revolucionário/reformista mede qualquer ação presente pelos delírios de grandeza de uma sociedade futura perfeita, acreditando que abolir a desigualdade social resolva todos os problemas do Cosmo
VEJA TAMBÉM:
- O calcanhar de Aquiles de Lula é a política internacional
- Como os políticos ideológicos podem vencer os fisiológicos
Como a desigualdade social anda fora de moda na era da tecnologia (quem é tonto de propor estatizar a Apple?), resta trocar para outras desigualdades, principalmente a do tripé raça-gênero-sexualidade (além de imigração em países ricos e aquecimento global para transferir mais poder para gente que não sabe a diferença da emissão de oxigênio entre um bambu e um cacto).
Mas, enquanto a esquerda trabalha por uma futura sociedade vegan, transmuçulmana, ciclista, pansexual, crossfiteira e mãe de pet, a realidade continua batendo na porta. E, às vezes, no vidro do carro, exigindo celular, aliança, senha do banco e talvez fazendo um sequestro-relâmpago, com alta possibilidade de violência sexual.
Em épocas eleitorais, a esquerda tende a esconder ou maquiar números de homicídios, roubos ou mesmo os mais lights, inflação e poder de compra, assim como tenta escantear seus discursos mais atrevidos – todo debate com um político esquerdista gera uma mentira quando a pergunta envolve aborto, como Lula, que já defendeu como direito da mulher e como algo que ele nunca defenderia, com a diferença de poucos dias, em 2022. E como não lembrar do mesmo Lula criticando “essa coisa demoníaca” de achar que homem pode virar mulher no mesmo ano eleitoral – o que não foi explorado nem colocado em debate em momento algum?
Os dois temas têm ainda algo de extremo interesse para a direita: além de se desejar viver em uma sociedade de segurança, em que a renda aumente de geração para geração, quer-se deixar um legado. Uma herança (embora não seja uma boa estratégia proferir tal palavra em volume alto, senão o Haddad pode colocar um imposto). Foi o tema de músicas e livros que falam de famílias por todo o Ocidente: o bisavô analfabeto que cuidou da terra, o avô que veio para a cidade, trabalhou igual um camelo e deixou uma casinha para o pai, que comprou um carrinho no fim da vida, até que o filho foi fazer faculdade.
Se isto parece uma ascensão, como lidar agora com os preços do governo Janja-STF? Se um bisavô analfabeto alimentava uma família de 7 filhos há 3 gerações, como alguém sai da faculdade hoje e não consegue pagar o aluguel de uma kitnet sem fazer dívida com o banco, e correndo o risco eterno de tomar um tiro no rosto em troca de um celular a cada quarteirão?
É um tema que poderia ser explorado em canções, filmes, livros – principalmente a ficção, onde as ideias mais maduras vivem, ao contrário da não-ficção. Como deixar algo para o futuro, se todos, principalmente os jovens, perderemos tudo para agentes que ignoram nossas vidas enquanto imprimem dinheiro, pagam passagens para a Janja e comitiva e nos deixam com medo de cada esquina e moto que passa? Não à toa, em uma sociedade sem amanhã, os jovens são imediatistas, a favor do aborto e sem esperança em uma vida metafísica além da própria autoconsumação em prazeres anestésicos.
A verdade é que o pensamento progressista, que aponta tanto para um futuro utópico, nos rouba morbidamente justamente qualquer possibilidade de um amanhã.

















Leave a Reply