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De “E.T.” a “Dia D”: a cruzada alienígena de Steven Spielberg

Quer ele tenha tido a intenção ou não, Steven Spielberg tenta convencer o mundo da existência de alienígenas há mais de 40 anos. Ele já doou dinheiro para programas de pesquisa. Já discutiu o assunto com presidentes. E agora, com “Dia D”, seu primeiro trabalho como diretor em quatro anos — que arrecadou mais de US$ 90 milhões globalmente em seu fim de semana de estreia —, ele fez mais um apelo ao público do cinema.

“Sempre tive a crença profunda de que não estamos sozinhos no universo. Vim ao mundo acreditando piamente que seria impossível pensar — e bastante pretensioso pensar — que somos a única vida inteligente no universo”, disse o diretor em entrevista à CNN.

“Dia D” pega essa ideia e corre com ela — literalmente — em um thriller de ficção científica de tirar o fôlego sobre o dia em que o mundo descobre que uma entidade governamental mantém contato há décadas com seres extraterrestres. Josh O’Connor e Colman Domingo interpretam denunciantes que tentam fugir daqueles que pretendem manter o segredo. Emily Blunt estrela como uma meteorologista local que se vê no centro da ação.

Durante o processo de filmagem, alguns de seus astros foram até convencidos pelo ponto de vista de Spielberg, incluindo Domingo, que disse à CNN estar totalmente de acordo.

“Sinto que é uma espécie de crença bonita para mim, a ideia de que há algo mais lá fora além de nós”, disse Domingo. “Olho para as estrelas todas as noites e espero que haja algo mais lá fora, que alguém esteja olhando para mim enquanto estou olhando de volta para eles.”

“Dia D” estreia nos Estados Unidos em um momento em que o país está repleto de teorias da conspiração, inclusive algumas sobre alienígenas, depois que a Casa Branca divulgou décadas de gravações de vídeo e arquivos confidenciais detalhando várias investigações de relatos de avistamentos de OVNIs.

Na sexta-feira (12), dia do lançamento do filme, o Departamento de Guerra liberou a terceira leva de arquivos relacionados a OVNIs. Alguns crentes mais extremistas estavam até convencidos de que o lançamento de “Dia D” fazia parte de um plano maior para que formas de vida alienígenas se revelassem pela primeira vez aos humanos na Terra, e que Spielberg estava envolvido nisso. Pesquise no Google. Ou não.

“Dia D” apresenta uma roupagem moderna para ideias clássicas de Spielberg: não estamos sozinhos, e isso não precisa ser algo ruim. Na verdade, talvez haja muito que possamos aprender sobre nossa própria fé e a natureza humana ao abraçar o desconhecido.

Definindo um padrão

Spielberg revolucionou a maneira como os americanos pensam sobre a vida alienígena. Antes de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de 1977, os encontros com alienígenas eram amplamente representados como experiências hostis, espelhando a dinâmica da Guerra Fria da época.

Desde o original “A Guerra dos Mundos” até “Sepultura na Eternidade” e “Vampiros de Almas”, histórias sobre invasores alienígenas malignos dominavam o gênero.

Tudo isso mudou no final da década de 1970, segundo Ray Morton, historiador de cinema e autor de “Close Encounters of the Third Kind: The Making of Steven Spielberg’s Classic Film”.

“Spielberg foi o primeiro a fazer ficção em que a possibilidade de encontrar vida de outro planeta pudesse ser uma experiência positiva”, disse Morton à CNN. “Agora, isso é meio que o padrão em muitas produções da cultura pop.”

“Contatos Imediatos”, estrelado por Richard Dreyfuss como um pai que fica obcecado em encontrar respostas após se deparar com um OVNI, ganhou o Oscar de melhor fotografia em 1978 e arrecadou mais de US$ 300 milhões globalmente nas bilheterias — um sucesso impressionante para um filme na época.

Spielberg se inspirou no trabalho do falecido J. Allen Hynek, um astrônomo americano que trabalhou como consultor científico para uma unidade de investigação de OVNIs dentro da Força Aérea dos EUA. Spielberg batizou o filme com o nome de um capítulo do livro de Hynek, “The UFO Experience: A Scientific Inquiry”, que examina e analisa a autenticidade dos relatos de avistamentos de OVNIs.

Com “Contatos Imediatos”, Spielberg inicialmente não tinha a intenção de fazer uma grande declaração sobre o que as pessoas deveriam acreditar. Ele abordou o filme de forma mais pragmática, dizendo à revista “Sight and Sound”, do British Film Institute, em 1977: “Se você acredita, é fato científico; se você não acredita, é ficção científica. Sou agnóstico entre as duas crenças, então, para mim, é especulação científica.”

O blockbuster seguinte de Spielberg foi “E.T. O Extraterrestre”, de 1982, a história voltada para crianças sobre um alienígena amigável perdido que se tornou um de seus filmes mais queridos até hoje.

Em uma exibição de “E.T.” na Casa Branca para uma sala cheia de convidados ilustres — incluindo o astronauta Neil Armstrong e a juíza da Suprema Corte Sandra Day O’Connor —, o então presidente Ronald Reagan agradeceu ao diretor por trazer o filme a Washington, olhou ao redor da sala e disse: “E há uma série de pessoas nesta sala que sabem que tudo o que está na tela é absolutamente verdade.” Todos riram, lembrou Spielberg, mas Reagan não.

“A sala inteira riu porque ele apresentou como uma piada, mas ele não estava sorrindo enquanto dizia isso”, disse ele na época.

Em 1985, Spielberg fez uma tentativa na vida real de encontrar respostas ao doar US$ 100 mil para um programa de Harvard que estudava sinais de rádio.

Arquivos confidenciais

A liberação de arquivos confidenciais sobre OVNIs por parte do governo já serviu de base para as histórias de Spielberg no passado, e uma reportagem do New York Times de 2017 que revelou que o Pentágono vinha pesquisando secretamente a possível existência de OVNIs desde 2007 foi uma grande inspiração para “Dia D”.

Spielberg disse à CNN que esse lote de informações gerou mais perguntas sobre se fomos visitados aqui na Terra.

“Foi quando comecei a pensar que talvez houvesse outra história a ser contada sobre o que está acontecendo hoje, agora mesmo”, disse ele.

O enredo do que se tornou “Dia D” tomou ainda mais forma quando audiências no Congresso pedindo que o governo fosse mais transparente sobre os avistamentos de OVNIs foram realizadas em 2022 e 2023.

“Não foi apenas sensacionalismo”, disse ele ao programa “Today” em uma entrevista no início deste mês. “Mas isso era algo que estava sendo levado muito a sério pelos principais veículos de comunicação.”

Spielberg esteve ligado a vários outros filmes de ficção científica durante sua trajetória em Hollywood que abordam invasões alienígenas, e nem todos eles com representações românticas do tipo “viemos em paz”. Ele atuou como produtor executivo em “Homens de Preto” e se desviou de seu estilo habitual com sua refilmagem de 2005 de “Guerra dos Mundos”, que Spielberg disse ser mais um comentário sobre o 11 de setembro.

Ao lançar o trailer de “Dia D”, Spielberg introduziu as imagens com uma mensagem.“Eu costumava dizer a mim mesmo: ‘Não seria maravilhoso se tudo isso se revelasse verdade? Agora digo a mim mesmo: ‘Tudo isso é verdade’”, disse ele.

“Dia D” nos pede para abraçar a ideia de outra vida inteligente e imaginar como reagiríamos a ela, incentivando-nos a fazer isso com empatia. Como ele já nos mostrou muitas vezes, Spielberg não apenas acredita que compartilhamos este universo com seres cósmicos, ele quer acreditar em nós.

Veja também: as referências de “Tubarão” em “O Agente Secreto”

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