O ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, que já dava sinais concretos de abandono da política de neutralidade, foi transformado nesta semana em palanque político para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo analistas ouvidos pela reportagem. A pasta está sendo usada para difundir a tese falsa de que os Estados Unidos atuariam hoje como um adversário voraz aos interesses nacionais e estariam supostamente prontos para fazer ataques militares no Brasil.

O Itamaraty afirmou que a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas por Washington engloba “a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”. A administração de Donald Trump classificou a declaração como “absurda”.

Segundo analistas ouvidos pela reportagem, a afirmação da diplomacia brasileira é uma construção retórica sem lastro na realidade geopolítica, que atende a um propósito eleitoreiro: inflar o sentimento de ameaça externa e reposicionar Lula como o líder da resistência nacional ante uma potência estrangeira.

“Nenhuma autoridade americana mencionou ação militar no Brasil. O que existe concretamente é a designação FTO [sigla em inglês para organização terrorista estrangeira], que abre caminho para bloqueio de ativos e sanções contra quem apoia essas facções, não para intervenção armada”, avalia Cezar Roedel, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e analista internacional.