É comum que, ao se debaterem os golpes financeiros, se comente que as pessoas que caem neles são ingênuas, que os golpistas estão cada vez mais sofisticados e que o volume de tentativas é tão grande que é difícil para o cidadão não ser vítima. Enquanto isso, as instituições financeiras passam ao largo dessa responsabilização, e a culpa recai sobre os criminosos ou, pior, sobre a própria vítima.

A cada nova fraude de grande repercussão, discute-se o aumento de penas, a criação de novas tipificações criminais ou formas mais duras de punição. Mas, diante da democratização e da digitalização do universo bancário, é importante analisarmos essa questão sob a ótica da responsabilidade de bancos e fintechs em fortalecerem suas estruturas operacionais e de segurança para coibir práticas que ocorrem em uma zona cinzenta do sistema e mitigar os riscos para a sociedade. Afinal, quando mais de 51% dos brasileiros afirmam ter sofrido algum tipo de fraude financeira digital em 2025, segundo levantamento da BioCatch, estamos falando de uma ameaça sistêmica para todos os cidadãos.

Para termos mais clareza sobre esse cenário, somente no Pix, as perdas alcançaram R$ 4,9 bilhões. Ainda segundo a pesquisa, em apenas um ano, o número de golpes cresceu 12 vezes na América Latina, com o Brasil liderando o número de casos.

O cenário se torna ainda mais preocupante quando observamos exemplos de instituições que tratam essas ocorrências como se fossem acontecimentos externos à sua atividade principal. Não são, haja vista que uma parcela significativa dos golpes depende da abertura de contas laranja, do uso de documentos falsos, da ausência de monitoramento compatível com movimentações suspeitas ou da circulação de recursos por contas que jamais deveriam ter sido aprovadas em processos mais rigorosos de compliance.