Quase dez meses desde que a Polícia Federal apreendeu o celular da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a perícia do aparelho está longe de esgotada. A reportagem apurou que o material recuperado “tem muito a revelar” sobre a rede de acesso e influência que ela teria construído com integrantes do governo federal.
A expectativa de investigadores é que uma eventual convocação de Lulinha para depor só deva ocorrer depois das eleições. O argumento para a demora é que ainda há muitos dados para serem analisados e o filho do presidente terá que se deslocar da Espanha, onde mora, para o Brasil.
Mas a reportagem apurou que o calendário de investigações também sofre influência política, pois o depoimento pode criar um possível fato político e tirar votos de Lula nas eleições.
A manobra ocorre em um momento de desgaste interno na PF, onde parte dos policiais quer acelerar as investigações enquanto outra ala tenta blindar o governo de desgaste.
Em paralelo, o governo vem tentando tirar o foco de Lulinha na reta final do primeiro turno, segundo analistas. Lula primeiro criou polêmica com a proibição das Bets, as casas de aposta on-line, que ele mesmo havia regulamentado.
Depois reforçou a notícia falsa lançada por ativistas pró-Lula e por uma jornalista da GloboNews de que Flávio Bolsonaro (PL) retiraria o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A Rede Globo se retratou após a divulgação das fake news.
Quanto ao caso Lulinha e Roberta, fontes a par das apurações dizem que os inquéritos podem ganhar ritmo mais acelerado somente após o fim do mês, após o segundo turno.
A quebra de sigilo do celular produziu um volume de mensagens capazes de reconstituir parte de uma suposta rede de acesso ao governo, mas o material extraído e documentos apreendidos ainda dependem de muitos cruzamentos e checagens. Mas a PF teria capacidade técnica para acelerar o ritmo das apurações, se o caso fosse prioridade.
A lobista e Lulinha negam que tenham agido para promover tráfico de influência. Dizem ter apenas uma relação de amizade.
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A apreensão do celular e as frentes de investigação
O celular de Roberta foi apreendido em dezembro de 2025, quando a PF deflagrou uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes bilionárias em descontos indevidos de beneficiários do INSS. A polícia cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à empresária. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, que também determinou o uso de tornozeleira eletrônica à lobista.
O aparelho seguiu para perícia, que passou a extrair e analisar o histórico de contatos. Desde o início, a ligação de Roberta com Lulinha e uma suposta rede de tráfico de influência foi indicada por elementos que revelavam proximidade, inclusive, com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como operador central das fraudes no INSS.
A partir daí, a perícia identificou diálogos em que Roberta tratava Lulinha como “sócio”, mencionava repasses e presentes a integrantes do primeiro escalão do governo e discutia articulações de negócios com empresários interessados em contratos públicos.
Material que, analisado pela PF, deu origem a três inquéritos autônomos no STF sobre suposto tráfico de influência do filho do presidente. Diferentemente de Roberta, Lulinha não é investigado no caso do INSS, mas dois desses inquéritos contra o filho do presidente estão sob relatoria de Mendonça e um terceiro com Flávio Dino. Todos estão sob sigilo.
A leitura que sustenta essa cautela teria justificativa. De um lado, evitaria expor ainda mais o tema em momento de disputa eleitoral acirrada, reduzindo o risco de a investigação ser instrumentalizada politicamente pelas campanhas, um temor que já motivou reclamações públicas do PT sobre suposta seletividade de alvos e investigações.
De outro, ajudaria a apaziguar ânimos dentro da própria PF, onde vazamentos já provocaram desconforto interno e externo. O Planalto vê o caso como fonte de desgaste político em período eleitoral.
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O que a quebra de sigilo já revelou
O material recuperado do celular de Roberta descreve o que para investigadores seria um balcão de negociação de acesso ao Estado. Documentos apontam movimentações que somariam milhões em negociações e articulações envolvendo a lobista. Entre os episódios estaria a coordenação de repasses em dinheiro vivo.
Roberta teria orientado um operador financeiro a fazer depósitos fracionados na tentativa de driblar alertas bancários, chegando a determinar que valores em espécie fossem “diluídos” entre diferentes contas para não levantar suspeita das instituições financeiras.
As mensagens também indicariam pagamentos a nomes específicos do entorno palaciano. O ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, teria recebido quase R$ 250 mil de Roberta. Ele afirma que se tratava de empréstimo pessoal já devolvido. Servidores do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social também teriam recebido depósitos poucos meses antes de uma empresa de tecnologia, representada por ela, fechar contratos com a pasta, que somam mais de R$ 50 milhões.
Outro nome é o de Swedenberger Barbosa, o Berger, hoje chefe de gabinete adjunto da Presidência, a quem a lobista teria presenteado com uma pintura e um relógio. Ele nega ter recebido vantagem indevida e também afirma nunca ter atuado para favorecer negócios ligados à Roberta ou seus interlocutores.
O que dizem Lulinha e Roberta
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva contesta veementemente a interpretação dada às mensagens atribuídas a ele ou que o mencionem.
Os advogados afirmam que não há comprovação de autenticidade do material e classificam a divulgação como fruto de vazamento criminoso de conteúdo sigiloso, tirado de contexto. Sustentam ainda que Lulinha vive na Espanha, atua exclusivamente na iniciativa privada e não mantém vínculo com o governo brasileiro, destacando que a quebra de seus sigilos não teria localizado prova de irregularidade.
A defesa também pediu ao Ministério da Justiça, à direção da PF e ao STF apuração sobre vazamentos das conversas. A defesa também afirmou que Lulinha está à disposição para um eventual depoimento.
A defesa de Roberta Luchsinger tem optado por não comentar as mensagens, alegando que os autos permanecem sob sigilo e criticando o que classifica como divulgações ilegais movidas por interesse político-eleitoral. Em manifestações pontuais, a defesa reforçou que sua atuação profissional se limitava a serviços legítimos de assessoria e prospecção de negócios, sem relação direta com contratos firmados entre empresas de seu círculo e órgãos do governo.
O presidente Lula tem evitado se aprofundar no caso, limitando-se a afirmar que Lulinha deve se defender das acusações e que, caso fique comprovada irregularidade, precisará responder por seus atos. Analistas interpretaram suas declarações como uma tentativa de manter distância institucional sem romper publicamente com o filho em plena campanha eleitoral. Lula chegou a afirmar que não conhecia Roberta e chegou a chamá-la de “pilantra” durante entrevista ao Jornal Nacional.
Porém, em mensagens do celular da lobista, Roberta fala a um interlocutor que o próprio presidente teria oferecido um cargo na estrutura governamental, mas que ela havia recusado. Lula nega.
Depois de Lula afirmar que não conhecia a lobista, fotos do presidente com ela passaram a circular publicamente. A justificativa de Lula é que, como figura pública, tira fotos com muitas pessoas sem que necessariamente as conheça.
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Por que Lulinha não é investigado no caso do INSS, mas aparece em três inquéritos
Lulinha não é investigado nas fraudes do INSS. O nome dele aparece em três inquéritos autônomos, abertos a partir de elementos colhidos na apuração original dos descontos indevidos de beneficiários, mas que hoje tramitam de forma independente.
Dois estão sob relatoria de Mendonça, provisoriamente remetidos ao presidente da Corte Edson Fachin. Um investiga suposto tráfico de influência e corrupção relacionados a uma tentativa de viabilizar contrato de fornecimento de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde, negócio que não chegou a se concretizar.
O segundo apura possíveis crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo contratos de tecnologia com a Dataprev e outros órgãos federais. Um terceiro inquérito, sob relatoria de Dino, foi aberto após a PF identificar que parte dos fatos tinha autonomia em relação às duas primeiras frentes. Ele examina a atuação de Lulinha em contratos de tecnologia e eventuais vazamentos de informações sigilosas das investigações.
Segundo investigadores, o principal desafio não é falta de material, mas o volume dele. A análise integral das conversas trocadas entre Roberta e dezenas de interlocutores, empresários, servidores públicos, assessores e o próprio Lulinha ainda está em curso, e diálogos adicionais, ainda não tornados públicos, devem revelar outras frentes de negócios e possíveis nomes do entorno governamental. Um dos pontos que a PF pretende esclarecer é o real papel exercido por Lulinha nessas articulações.
Entre as linhas de investigação estão se ele testemunhava ou participava das conversas da lobista e se atuava de forma mais ativa, orientando reuniões e emissão de documentos fiscais em benefício de empresários interessados em contratos públicos.
Outro ponto é a extensão da rede, até onde chegaram os repasses feitos por Roberta e quais servidores, além dos já identificados, podem ter recebido valores ou vantagens em troca de facilitar acesso a ministérios e estatais.
Investigadores também querem determinar se há contrapartida direta entre pagamentos documentados e os contratos que, meses depois, acabaram sendo firmados por empresas supostamente beneficiadas.
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