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Quando um gol da África do Sul na Copa do Mundo chacoalhou todo um país

Embora seus olhos e ouvidos certamente estejam voltados para a cacofonia de sensações que desce de todos os cantos históricos do Estádio Azteca, para muitos dos jogadores da Seleção Sul-Africana que entrarão em campo nesta quinta-feira (11), para enfrentar o México, um dos coanfitriões da Copa do Mundo, na partida de abertura do torneio, haverá um breve momento em que serão transportados de volta no tempo.

O calendário voltará exatamente 16 anos, para 11 de junho de 2010. É a mesma data, o mesmo adversário mexicano e até a mesma ocasião – uma partida de abertura de Copa -, mas os viajantes do tempo não são os mesmos. Eles voltam a ser crianças, de olhos arregalados diante da televisão ou, se tiveram sorte, presentes no Soccer City, em Joanesburgo, quando Siphiwe Tshabalala apoia o pé direito no chão e se prepara para disparar.

Os segundos seguintes estão gravados na memória de todos os torcedores dos Bafana Bafana. O chute poderoso de Tshabalala faz a bola explodir em direção ao canto superior direito do gol de Óscar Pérez e coloca os anfitriões à frente no placar, enquanto o estrondo incessante das vuvuzelas é – de alguma forma – abafado por um rugido ouvido em todo o país.

Em algum lugar no meio daquela loucura nas arquibancadas estava Nkosinathi Sibisi, então com 13 anos, que deve fazer sua estreia em Copas do Mundo pelo país nesta semana. “Acho que sentimos o país inteiro se mover. Não foi apenas um grande momento para os jogadores, mas para todo o país e para toda a África”, disse Sibisi à CNN.

Talvez o momento mais memorável ainda estivesse por vir, quando Tshabalala foi acompanhado por quatro companheiros junto à bandeirinha de escanteio para executar uma coreografia sincronizada que se tornaria instantaneamente icônica.

Mas o atual goleiro da África do Sul, Sipho Chaine, não viu nada disso. O futuro arqueiro já havia saído correndo de casa e disparado, em êxtase, por uma rua próxima a Bloemfontein antes mesmo de os jogadores começarem a dançar. Felizmente, sua mãe estava por perto para recriar a comemoração quando ele voltou.

“Para mim, é uma das lembranças mais felizes da minha vida. Todos eles eram heróis da minha infância. Quando você é criança e vê esses jogadores, pessoas que realmente admira, você quer estar no lugar em que eles estão”, recordou Chaine à CNN.

Hiato

Como o primeiro gol da primeira Copa do Mundo realizada em solo africano, o gol de Tshabalala foi um marco para o continente e representou um novo capítulo para o futebol sul-africano.

Suspensa e posteriormente expulsa da Fifa devido à segregação racial imposta pelo regime do Apartheid, a África do Sul ficou três décadas sem disputar partidas oficiais antes de retornar ao cenário internacional em 1992.

Embora a conquista da Copa Africana de Nações quatro anos depois continue sendo o maior feito dos Bafana Bafana dentro de campo, o espetacular gol de Tshabalala na estreia da Copa de 2010 em casa representou um “ímã” que o país procurava, segundo Lydia Monyepao-Yele, diretora-executiva da Associação Sul-Africana de Futebol.

“O país inteiro explodiu em comemoração, mas não era apenas sobre aquele gol; era o fato de estarmos sediando esse enorme evento global do futebol em nossa própria casa. Isso reacendeu uma chama em nós, porque tivemos uma história muito difícil como país, e mostrou o poder do futebol para unir as pessoas. Não importava quem estivesse ao seu lado; você o abraçava, comemorava, dava as mãos. Foi algo lindo de ver”, falou a dirigente.

No entanto, para alguns, as lembranças daquele dia carregam uma tonalidade mais cinzenta. O México empatou apenas 15 minutos depois, e a equipe africana não conseguiu reproduzir a magia, tornando-se a primeira seleção anfitriã da história a não avançar para o mata-mata, apesar da vitória por 2 a 1 sobre a França na última partida da fase de grupos.

O pior ainda estava por vir. Depois de disputar três das quatro Copas do Mundo anteriores, a África do Sul não conseguiu se classificar para nenhuma das três edições seguintes. Também houve poucas alegrias no cenário continental, já que a seleção assistiu de casa a três das seis edições seguintes da Copa Africana de Nações.

Embora o uso contínuo dos estádios construídos para o Mundial de 2010 seja um aspecto positivo, o “decepcionante hiato” que veio depois faz com que nem mesmo a euforia do gol de Tshabalala consiga apagar o sentimento mais amplo de arrependimento pelas oportunidades perdidas.

“Havia grandes expectativas de que a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul serviria como trampolim para uma liga nacional muito melhor e para um interesse internacional muito maior. E isso realmente não aconteceu. Houve uma sequência de treinadores ruins, uma escassez geracional de talento, muitos problemas administrativos, com pessoas gastando dinheiro de forma irresponsável em coisas sem importância… Do ponto de vista futebolístico, ninguém olha para 2010 com muita nostalgia”, analisou o jornalista Mark Gleeson.

Oportunidade

A partida desta quinta, oferece a uma nova geração de jogadores dos Bafana Bafana a chance de mudar essa narrativa.

Sob o comando do técnico belga Hugo Broos, a África do Sul terminou em terceiro lugar na Copa Africana de Nações de 2023 e depois superou a Nigéria nas Eliminatórias da Copa do Mundo, encerrando o período de ausências e garantindo sua vaga no torneio que será disputado nos Estados Unidos, México e Canadá.

Apoiando-se em uma espinha dorsal formada por jogadores dos clubes sul-africanos Mamelodi Sundowns e Orlando Pirates, Broos, de 74 anos, construiu uma equipe coesa a partir de um elenco que não conta com as grandes estrelas presentes em outras seleções africanas.

Enquanto Egito e Marrocos podem contar com talentos como Mohamed Salah e Achraf Hakimi, o atacante Lyle Foster é o único jogador do time que atuou em uma grande liga europeia na última temporada, tendo sido rebaixado com o Burnley, da Premier League.

“Quando vejo o Broos, vejo meu avô. Meu avô era muito rígido e muito honesto, e ele é assim também. Trouxe estabilidade para a seleção, trouxe união, trouxe espírito de irmandade… Tudo o que fazemos, fazemos juntos, e ele é um líder silencioso”, falou o meio-campista Teboho Mokoena nà CNN

No formato ampliado do torneio, em que as oito melhores seleções terceiras colocadas avançam para a fase de 16-avos de final, um resultado surpreendente contra o México colocaria os Bafana Bafana muito perto de sua melhor campanha em Copas do Mundo.

“Não existe expectativa sobre os ombros deles. Os torcedores locais não depositam muitas esperanças. Certamente o mundo também não. É exatamente o tipo de cenário em que uma surpresa pode acontecer. Dá para entender os mexicanos: como coanfitriões da Copa do Mundo, haverá muita pressão sobre eles. Será um enorme peso de expectativas… um tipo de pressão sob a qual você pode realmente desmoronar”, afirmou Gleeson.

Se surgir um novo Tshabalala entre os escombros, espere por muita dança. E, se a equipe sul-africana for ainda mais longe, espere muito mais do que isso. “Se eles conseguirem passar da fase de 32 e chegar às oitavas de final, acho que este país fará uma festa gigantesca”, acrescentou o jornalista.

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