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Sem conflitos no relacionamento? Entenda o que dizem os terapeutas

A imagem do casal perfeito, que raramente discute e parece estar sempre em sintonia, ainda é um dos modelos mais difundidos quando o assunto é relacionamento. Mas, na prática, a ausência de conflitos está longe de ser um indicativo de sucesso amoroso. Pelo contrário: para especialistas, os casais que conseguem atravessar os anos juntos costumam ser justamente aqueles que não fogem das conversas difíceis.

À CNN Brasil, o psicólogo Alberto Nery, mestre e doutor em Psicologia pela USP, diz que parte dessa percepção equivocada surge da forma como as pessoas entendem o conceito de “briga“. Muitas vezes, qualquer discordância é vista como algo negativo, enquanto em outros casos a palavra é associada apenas a situações de agressividade, desrespeito ou violência.

“Se considerarmos briga como algo marcado por ofensas, agressões ou violência psicológica, realmente nenhuma relação saudável deveria ter isso. Mas, quando falamos de divergências, opiniões diferentes e dificuldades de chegar a um consenso, estamos falando de algo natural em qualquer relacionamento“, explica.

A diferença está justamente na maneira como o conflito é conduzido. Enquanto discussões destrutivas são marcadas por ataques pessoais, falta de respeito e tentativas de vencer o outro, os conflitos saudáveis acontecem quando existe disposição para ouvir, compreender e buscar uma solução conjunta.

Para o profissional, talvez seja mais adequado substituir a palavra “briga” por “conversa difícil”. Isso porque o desacordo, por si só, não representa uma ameaça ao relacionamento. Em muitos casos, ele pode até fortalecer a relação.

Casais mais honestos tendem a discutir mais?

De acordo com Nery, a resposta é sim. Casais que conseguem abordar assuntos delicados costumam ser mais transparentes sobre suas necessidades, frustrações e expectativas.

Em vez de acumular ressentimentos ou evitar determinados temas para preservar uma aparente tranquilidade, eles se sentem mais confortáveis para expressar o que pensam e sentem. A longo prazo, essa postura tende a favorecer a construção de vínculos mais sólidos e autênticos.

“Esses casais não guardam tudo para si e não evitam assuntos difíceis. Eles falam sobre o que os incomoda e tentam encontrar formas de resolver os problemas”, afirma.

Quando o conflito fortalece a relação

Nem toda discussão enfraquece um relacionamento. Alguns sinais indicam que os conflitos estão sendo produtivos e contribuindo para o crescimento do casal.

Conforme explica o especialista, entre eles estão: a presença de respeito durante a conversa, a disposição de ambas as partes para participar do diálogo, a busca por uma solução em comum e a capacidade de reconhecer erros quando necessário.

Outro aspecto importante é a disposição para compreender o ponto de vista do parceiro, em vez de focar apenas em provar quem está certo.

“Quando existe abertura para ouvir o outro, reconhecer equívocos e fazer concessões quando necessário, o conflito deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma ferramenta de fortalecimento da relação”, destaca.

Existe uma frequência “normal” de conflitos?

A resposta é não. Segundo o psicólogo, não existe uma quantidade ideal de discussões que possa ser aplicada a todos os relacionamentos.

Casais com histórias de vida muito diferentes, valores distintos ou níveis variados de maturidade emocional podem enfrentar mais conflitos, especialmente nos primeiros anos de convivência. Porém, isso não significa necessariamente que a relação esteja em crise.

Na verdade, em alguns casos, a frequência maior de conversas difíceis pode indicar justamente que o casal está construindo alinhamento e aprendendo a lidar com as diferenças.

Com o passar do tempo, no entanto, a tendência é que muitos conflitos se tornem menos frequentes, à medida que os parceiros se conhecem melhor e desenvolvem formas mais eficientes de comunicação.

O mito que precisa ser abandonado

Entre os equívocos mais comuns sobre relacionamentos está a crença de que todo conflito deve ser resolvido imediatamente, de acordo com o profissional.

A famosa ideia de que os casais nunca devem dormir sem resolver uma discussão pode acabar gerando ainda mais desgaste, especialmente quando ambos estão cansados, estressados ou emocionalmente abalados.

Para Alberto, insistir em uma conversa quando nenhuma das partes está em condições de dialogar tende a piorar a situação. Em muitos casos, a atitude mais madura é interromper a discussão temporariamente e retomá-la em outro momento, quando houver mais equilíbrio emocional.

“Nem sempre resolver tudo na hora é a melhor solução. Às vezes, dar um tempo para refletir e voltar ao assunto depois aumenta muito as chances de uma conversa produtiva”, diz.

Quando os conflitos se tornam um sinal de alerta

Embora os conflitos façam parte de qualquer relacionamento saudável, existem limites que não devem ser ultrapassados.

O psicólogo alerta que as discussões passam a ser preocupantes quando se tornam excessivamente frequentes, quando a intensidade só aumenta ao longo do tempo ou quando começam a envolver qualquer forma de violência.

Agressões verbais, humilhações, manipulação emocional, ameaças, intimidação e violência física jamais devem ser encaradas como normais dentro de uma relação.

Para evitar que os conflitos cheguem a esse ponto, ele recomenda investir em autoconhecimento, desenvolver habilidades de comunicação e buscar referências como a “Comunicação Não Violenta (CNV)”. A terapia também pode ser uma aliada importante nesse processo.

Acima de tudo, ele destaca que o objetivo de uma conversa difícil não deve ser vencer uma disputa, mas compreender o outro.

“Quando a pessoa entra em uma conversa querendo entender antes de convencer, ela já deu um passo enorme para construir relações mais saudáveis”, conclui.

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